Política com conteúdo. Centro com clareza.
quinta-feira, 24 de setembro
Assinar
Agora
Rodrigo Guedes promete fiscalizar governo e confrontar deputados na Assembleia do AmazonasDatafolha: Marília e Aécio seguem na liderança pelo Senado em MinasAécio recebe apoio de policiais civis de Minas Gerais“A mentira mais repetida da eleição”: falas de 2025 confrontam discurso atual de Carlos Viana sobre impeachment no STFCrítica de Lula sobre igreja católica causa desconforto, diz CNBB
Política

Assessora de Flávio Bolsonaro negociou liberação de emendas com miliciano condenado por morte de Marielle Franco

Por Brasil no Centro Publicado em 22 de setembro de 2026 às 10:15 5 min de leitura
Compartilhar
Assessora de Flávio Bolsonaro negociou liberação de emendas com miliciano condenado por morte de Marielle Franco

Uma investigação da Polícia Federal colocou sob escrutínio a destinação de emendas parlamentares do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após diálogos de uma assessora de seu gabinete com Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco.

As conversas, obtidas pela PF e analisadas pela imprensa, tratam da liberação de recursos destinados a um projeto de futebol do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), no Rio de Janeiro. O repasse mencionado nos diálogos foi de R$ 199 mil. Segundo a investigação, o valor integra um conjunto de aproximadamente R$ 600 mil em recursos destinados por Flávio Bolsonaro à organização ou a iniciativas relacionadas a ela.

Calixto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação na organização criminosa relacionada ao caso Marielle. Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão também foram condenados pelo STF como mandantes do assassinato da vereadora.

Conversas tratavam de recursos parlamentares

Segundo o material reunido pela Polícia Federal, Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora de Flávio, manteve contato com Calixto em 2023 e 2024 para tratar da tramitação dos recursos.

Em uma das mensagens, Calixto pede que a assessora consulte o senador sobre a possibilidade de ajudar o projeto. A orientação recebida foi para formalizar a solicitação por e-mail ou ofício. Em outro momento, ele pergunta sobre uma eventual visita a Brasília e volta a solicitar apoio.

As conversas continuaram nos meses seguintes. Em novembro de 2023, Calixto cobrou informações sobre os recursos e pediu que Flávio não deixasse de contemplar o instituto. Em março de 2024, voltou a perguntar sobre as destinações parlamentares.

A PF classificou Maria de Fátima como interlocutora direta de Calixto dentro do gabinete senatorial e afirmou que os diálogos indicariam uma relação de proximidade entre os envolvidos. A assessora continua vinculada à equipe de Flávio Bolsonaro, segundo as informações divulgadas pela reportagem.

PF investiga possível desvio de recursos

O projeto beneficiado pelas emendas está localizado na Taquara, na zona oeste do Rio, região apontada nas investigações como área de influência dos irmãos Brazão.

A Polícia Federal identificou indícios de que parte dos recursos destinados a entidades sem fins lucrativos teria sido desviada por meio de pagamentos indevidos, empresas intermediárias e mecanismos destinados a dificultar a identificação da origem e do destino do dinheiro. A investigação também cita suspeitas envolvendo contratos relacionados ao projeto esportivo.

Segundo o relatório policial, uma apuração do Tribunal de Contas da União identificou que o escritório de advocacia do presidente do Ifop havia sido contratado para coordenar o projeto, com indícios de que os valores pagos pelo serviço teriam sido previamente combinados.

O instituto ainda não havia apresentado manifestação à reportagem consultada.

Pedido de ingressos para o Carnaval também aparece nas mensagens

Os diálogos analisados pela PF não tratam apenas das emendas. Em uma das conversas, Maria de Fátima solicita a Calixto quatro ingressos para o desfile das campeãs no Sambódromo, em um camarote na Sapucaí.

A solicitação foi classificada pelos investigadores como possível vantagem indevida. Segundo a documentação, Calixto conseguiu quatro credenciais por meio de outro interlocutor, embora as mensagens não permitam concluir se os ingressos chegaram efetivamente às mãos da assessora.

Em outra conversa, a assessora também convida Calixto para uma cerimônia relacionada à Polícia Militar do Rio e sugere que ele leve o então deputado Chiquinho Brazão para cobrar pessoalmente Flávio sobre a liberação dos recursos.

De acordo com a PF, poucos dias depois do evento, Flávio destinou emendas que posteriormente foram relacionadas pelos investigadores a suspeitas de contratações fraudulentas no instituto.

Defesa de Flávio afirma que repasses foram legais

A defesa de Flávio Bolsonaro afirma que os recursos foram destinados de acordo com a legislação e seguiram critérios técnicos estabelecidos pelo Ministério do Esporte.

Em manifestação divulgada à reportagem, a defesa sustentou que a entidade responsável pela execução apresentou notas fiscais referentes aos materiais adquiridos e devolveu os valores que não foram utilizados. Também afirmou que a responsabilidade pela execução dos recursos é da instituição beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.

O advogado de Robson Calixto não havia respondido aos contatos realizados pela reportagem. As defesas dos irmãos Brazão também foram procuradas, sem manifestação específica sobre os recursos mencionados nas conversas.

Investigação alcança outras emendas

A apuração faz parte de uma investigação mais ampla da Polícia Federal sobre suspeitas de desvios de emendas parlamentares destinadas a organizações não governamentais no Rio de Janeiro.

Segundo os investigadores, os recursos federais teriam sido direcionados a entidades que mantinham contratos ou parcerias com órgãos públicos e, em alguns casos, posteriormente desviados mediante pagamentos indevidos e utilização de empresas intermediárias. Calixto esteve entre os alvos de uma operação deflagrada pela PF no âmbito dessa investigação.

No caso específico envolvendo Flávio Bolsonaro, a investigação busca esclarecer a destinação dos recursos e eventual participação de terceiros nas irregularidades apontadas. Até o momento, as suspeitas descritas pela PF permanecem sob apuração, enquanto a defesa do candidato sustenta que os repasses seguiram os procedimentos legais.