Contra a lei, perfis americanos tem posts impulsionados favorecendo Flávio Bolsonaro nas redes sociais

Perfis registrados fora do Brasil passaram a divulgar no X, antigo Twitter, publicações patrocinadas em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Os conteúdos utilizam dados da plataforma Polymarket, um mercado de previsões, para sustentar a ideia de que o senador estaria em vantagem na disputa eleitoral. As publicações foram identificadas pelo próprio X como “parceria paga”.
O caso chama atenção porque a legislação eleitoral brasileira estabelece regras específicas para o impulsionamento de propaganda política na internet. A Lei das Eleições determina que a publicidade eleitoral paga na rede, fora das hipóteses permitidas, é proibida e que o impulsionamento deve ser contratado exclusivamente por candidatos, partidos, coligações, federações ou seus representantes.
A legislação também permite que pessoas físicas publiquem espontaneamente conteúdo político na internet, mas impede que essas pessoas contratem impulsionamento para ampliar artificialmente o alcance das publicações. O Tribunal Superior Eleitoral mantém ainda regras de identificação do responsável pela propaganda patrocinada.
Nas publicações identificadas pelo Metrópoles, contas localizadas nos Estados Unidos apresentam as oscilações da Polymarket como uma espécie de indicador da disputa brasileira. Algumas das mensagens fazem afirmações favoráveis a Flávio Bolsonaro e o apresentam como alguém capaz de derrotar o “esquerdismo” na América Latina.
O ponto central da apuração, entretanto, está justamente na origem do patrocínio. Embora o X identifique os conteúdos como pagos, o selo exibido pela plataforma não informa quem efetivamente financiou cada publicação. Por isso, a existência de perfis estrangeiros patrocinando conteúdo favorável ao candidato não permite, por si só, concluir quem realizou os pagamentos ou se houve participação da campanha.
Legislação restringe impulsionamento por terceiros
A Lei nº 9.504/1997 estabelece que a propaganda eleitoral paga na internet somente pode ser impulsionada dentro das condições previstas na legislação. O artigo 57-C determina que o serviço deve ser contratado exclusivamente por partidos, coligações, candidatos ou seus representantes, além de exigir identificação inequívoca do responsável.
A legislação eleitoral também proíbe que candidatos e partidos recebam, direta ou indiretamente, recursos provenientes de entidade ou governo estrangeiro, inclusive por meio de publicidade. A simples localização de uma conta fora do país, porém, não comprova automaticamente que o dinheiro utilizado no anúncio tenha origem estrangeira. Essa identificação depende da apuração sobre quem contratou e financiou a publicidade.
O especialista em direito eleitoral Jorge Washington Cançado, ouvido pelo Metrópoles, afirmou que o impulsionamento por terceiros não é permitido pelas regras eleitorais. Segundo ele, eventual responsabilização dependeria da comprovação da origem dos recursos e das circunstâncias concretas da contratação.
Polymarket aparece como argumento eleitoral
Grande parte dos conteúdos patrocinados utiliza informações da Polymarket para apresentar uma suposta vantagem de Flávio Bolsonaro na eleição brasileira. A plataforma funciona como um mercado de previsões, no qual participantes negociam posições relacionadas à possibilidade de determinados acontecimentos.
O mecanismo é diferente de uma pesquisa eleitoral tradicional. As cotações da Polymarket representam a negociação entre seus usuários e não correspondem diretamente a uma sondagem realizada com eleitores brasileiros.
Segundo levantamento do site Factchequeado citado pelo Metrópoles, a Polymarket patrocinou 13 publicações no X entre março e maio deste ano. Onze delas apresentavam narrativas favoráveis a políticos de direita ou críticas a nomes da esquerda. No caso brasileiro, uma das peças utilizou a movimentação da plataforma para afirmar que Flávio havia ultrapassado Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A estratégia também teria aparecido em conteúdos relacionados às eleições da Colômbia e do Peru, sempre utilizando o desempenho do mercado de previsões como argumento para apresentar determinado candidato como favorito.
Desde junho de 2025, a Polymarket mantém parceria com o X como plataforma oficial de previsões de mercado. No Brasil, o governo federal bloqueou o acesso à plataforma em abril de 2026, alegando que o serviço não possuía autorização para oferecer contratos ou apostas relacionados a temas políticos e eleitorais no país.
Conteúdo estrangeiro é replicado por aliados de Flávio
Parte das publicações patrocinadas por contas estrangeiras também passou a circular entre perfis brasileiros ligados ao campo político de Flávio Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro (PL), irmão do candidato, republicou algumas das mensagens sobre o desempenho de Flávio na Polymarket. O mesmo conteúdo apareceu em contas como as de Mário Frias (PL-SP), Lucas Pavanato (PL-SP) e Allan dos Santos.
Algumas das publicações compartilhadas foram acompanhadas da frase “vai ser no primeiro turno”, repetida posteriormente por outros perfis brasileiros.
A repetição das mesmas mensagens e expressões, contudo, não é suficiente para estabelecer que exista uma operação coordenada ou que os perfis brasileiros tenham participado do financiamento dos conteúdos. Para isso, seria necessário identificar vínculos entre os responsáveis pelas contas, os contratantes e a origem dos recursos.
Também não há, nas informações divulgadas até o momento, comprovação de que a campanha de Flávio Bolsonaro tenha contratado ou financiado as publicações estrangeiras.
A equipe do candidato foi procurada pela reportagem que revelou o caso e, até a publicação, não havia apresentado manifestação. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.
O episódio coloca novamente em evidência a disputa pelo alcance nas redes sociais durante a campanha de 2026, especialmente em um ambiente no qual conteúdos patrocinados podem alcançar grandes públicos em poucos minutos. A legislação eleitoral, por sua vez, estabelece limites justamente para identificar quem financia a propaganda e impedir que terceiros ampliem artificialmente o alcance de mensagens eleitorais.