“A mentira mais repetida da eleição”: falas de 2025 confrontam discurso atual de Carlos Viana sobre impeachment no STF

Um vídeo de 2025 voltou a ganhar relevância em meio à campanha eleitoral de Minas Gerais. Nele, o senador Carlos Viana (PSD-MG), hoje candidato à reeleição, faz uma avaliação categórica sobre uma bandeira que meses depois passaria a defender: o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Em entrevista a O Tempo, Viana afirmou que candidatos tentariam conquistar votos prometendo chegar ao Senado para afastar integrantes do STF e classificou esse discurso como uma mentira eleitoral.
“Essa vai ser a mentira mais repetida nas próximas eleições, né? Ganhar o Senado para fazer impeachment de ministro do Supremo. Isso não há a menor possibilidade”, declarou.
Viana não tratou o assunto apenas como uma dificuldade política. Na entrevista, sustentou repetidamente que a medida não seria possível nas condições existentes.
“Vai contar essa mentira de que vai fazer um impeachment do ministro do Supremo”, afirmou.
O senador também direcionou o alerta ao eleitorado conservador. Segundo Viana, “os conservadores se deixam muito facilmente enganar com isso”, porque candidatos poderiam explorar a insatisfação provocada por decisões do Supremo para transformar o impeachment de ministros em bandeira eleitoral.
A declaração a O Tempo não foi um episódio isolado.
Em 3 de julho de 2025, durante entrevista ao Arena Oeste, da Revista Oeste, Viana apresentou avaliação semelhante. Na ocasião, afirmou que “a maior mentira que vai ser repetida nessa próxima campanha é o impeachment de ministro do Supremo”.
A Revista Oeste registrou ainda que, na avaliação do senador, a possibilidade de impeachment de integrantes da Corte era praticamente inviável.
As duas manifestações ajudam a estabelecer que, em 2025, Viana sustentava publicamente uma posição clara sobre o tema: eleger senadores prometendo afastar ministros do STF seria vender ao eleitor uma expectativa que, segundo ele próprio, não poderia ser concretizada.
Pouco mais de um ano depois, o discurso mudou: Viana passa a defender o impeachment
Em 1º de setembro de 2026, já candidato à reeleição por Minas Gerais, Carlos Viana anunciou que havia protocolado no Senado uma denúncia por crime de responsabilidade com pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes.
“Protocolei denúncia de crime de responsabilidade com pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes”, declarou o senador ao anunciar a iniciativa.
O pedido foi apresentado após a divulgação de mensagens atribuídas ao ministro e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Viana argumenta que os fatos precisam ser investigados e que, caso comprovados, poderiam configurar crime de responsabilidade. As alegações apresentadas pelo senador não significam, por si só, que tenha ocorrido crime e dependem da análise das instâncias competentes.
A mudança não ficou restrita ao protocolo de uma representação.
Viana passou a cobrar publicamente providências do Senado e a defender o avanço de processos contra integrantes do Supremo. Também criticou a postura do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), diante dos pedidos de impeachment. O contraste é direto: em 2025, Viana alertava que candidatos usariam justamente essa bandeira para conquistar o eleitor conservador. Em 2026, passou ele próprio a defender o instrumento e a pressionar o Senado por sua utilização.
Outro ponto das declarações de 2025 merece atenção: Na entrevista a O Tempo, Viana afirmou que um impeachment de ministro do Supremo somente poderia ocorrer diante de situações como um magistrado ser “pego vendendo uma sentença”. Também disse que “o próprio impeachment começa pelo Judiciário, não começa pelo Senado”.
Mas não é o que prevê a legislação brasileira. Entre as condutas previstas estão alterar decisão ou voto já proferido, exercer atividade político-partidária, ser patentemente desidioso no cumprimento dos deveres do cargo e proceder de modo incompatível com a honra, a dignidade e o decoro das funções. Isso não significa que retirar um ministro do Supremo do cargo seja simples. O processo envolve obstáculos jurídicos, procedimentais e políticos consideráveis e nenhum ministro do STF foi afastado por impeachment desde a Constituição de 1988.
A possibilidade jurídica, porém, existe. E a Constituição atribui ao Senado a competência para processar e julgar esses casos.
De alerta contra “mentira eleitoral” a autor de pedido de impeachment
A comparação entre os dois momentos ganha peso porque Viana antecipou em 2025 exatamente o debate que surgiria na campanha seguinte. Ele dizia que candidatos apareceriam prometendo chegar ao Senado para promover o impeachment de ministros do Supremo. Chamou essa promessa de “mentira”, disse não haver “a menor possibilidade” e alertou que conservadores poderiam ser enganados por esse discurso.
Em 2026, candidato à reeleição, o senador protocolou pessoalmente um pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes e passou a defender que o Senado avance sobre o tema. As declarações de 2025 foram registradas em mais de uma ocasião, inclusive nas entrevistas a O Tempo e ao Arena Oeste.
A comparação não permite afirmar qual foi a motivação de Viana para alterar seu posicionamento. Mas deixa uma pergunta objetiva para o senador responder:
O que mudou entre 2025, quando Carlos Viana dizia que eleger senadores prometendo impeachment de ministros do STF seria “a mentira mais repetida” da eleição, e 2026, quando o próprio candidato passou a defender e protocolar um pedido de impeachment?