Paulo Hartung: “Revoluções em tempos de grandes mudanças”

Todo esse panorama de incertezas e agitações sociotécnicas e políticas resulta num tempo movediço, realidade de instabilidades e ansiedades generalizadas

Paulo Hartung: “Revoluções em tempos de grandes mudanças”

Nesta virada de ano que marcou a ultrapassagem de um quarto do primeiro século do novo milênio, talvez a reflexão mais relevante a fazer diga respeito à transformação intensa e ampla que estamos testemunhando – ou melhor, experimentando em todos os aspectos de nossa sociabilidade. Acerca desta questão, recomendo uma leitura que acabo de fazer. Trata-se de Era das Revoluções – Progresso e reação de 1.600 até o presente, livro de Fareed Zakaria, abordando a temática das disruptivas transformações de nossos tempos numa perspectiva histórica ímpar.

Zakaria destaca revoluções determinantes, como a francesa e a industrial, que configuraram a atual feição do mundo, convulsionado ele mesmo por quatro revoluções contemporâneas, fomentadas pela globalização, tecnologia, identitarismo e geopolítica.

O apresentador da CNN e colunista do Washington Post aponta: “Quando juntas, essas três forças – tecnologia, economia e identidade – quase sempre provocam reações que levam a uma nova política. Os seres humanos não são capazes de absorver tantas mudanças tão rápido assim. A velha política, herdada de uma era anterior, em geral não consegue manter o ritmo. Os políticos lutam para se ajustar e, para tanto, modificam opiniões que antes defendiam e buscam novas alianças. O resultado é reforma e modernização ou repressão e revolta, e, muitas vezes, uma combinação incendiária das duas coisas”.

Zakaria prossegue em seu diagnóstico assertivo e preciso: “Hoje, as transformações no seio das nações também provocaram uma revolução geopolítica”, mobilizando Estados Unidos e China numa disputa por influência e hegemonia em escala planetária.

O autor também ressalta a questão de inseguranças e ansiedades nesta realidade eivada de revoluções convulsionantes. “A crise do liberalismo global não surgiu num vácuo. É resultado de sociedades em rápida transformação e líderes que capitalizam os temores de todas essas mudanças”. Para ele, nesse processo de instabilidades, entraram em pauta relevante “o populismo, o nacionalismo e o autoritarismo”. Nesse tempo que se assemelha a um “abismo infinito”, Zakaria aponta um mal-estar que requer profunda reflexão e resposta séria. Defende caminhos que levem as pessoas a se sentirem menos inseguras e à deriva, como o reforço à cultura da vida em comunidade e articulada a valores que nos unem como humanos, seja do ponto de vista econômico, seja pela perspectiva político-cultural.

Por falar dessa era transtornada por rupturas e liquidez, incluindo abordagem sobre a influência que medo e sensação de desamparo têm nas relações de poder, há pouco lançamos um livro que trata dessa temática sob o ângulo da política, aqui e no mundo afora.

No Política em tempos de grandes mudanças, que traz contribuições valiosas de Luciano Huck (prefácio), Ana Paula Vescovi (contracapa), Marcos Lisboa (posfácio) e Samuel Pessôa (orelhas), abordamos questões variadas que desafiam o paradigma civilizatório nesta atualidade tão crítica. Numa era em que a volatilidade atravessa todas as estruturas sociais, especialmente turbinada pela experiência digital, temos de lidar com avanços de extremismos políticos, guerras com ecos planetários, crise climática, ataques ao multilateralismo e efeitos da pandemia da covid-19, entre outros. Em nosso país, ainda enfrentamos o desafio de atravessar tal cenário em meio a desencontros institucionais, repetição atávica de erros, populismos e radicalismos.

Todo esse panorama de incertezas e agitações sociotécnicas e políticas resulta num tempo movediço, “realidade de instabilidades e ansiedades generalizadas, na qual tudo se pode questionar, tudo se pode relativizar, entre outras mazelas de amplas consequências. Neste tempo em constante liquefação, de impermanências, acentua-se a sensação de insegurança e incertezas”, ressaltamos no livro.

Nessa contingência, também conforme pontuamos no livro, “medo e desamparo se misturam a discursos extremistas e salvacionistas e, portanto, simplificadores e enganosos, acirrando condições inóspitas à política de inspiração republicana e humanística, com consequências para todos, no presente e no futuro”.

Desse modo, é vital o distanciamento de extremismos e radicalismos. Conforme destacamos no livro, nesta sociabilidade sísmica, “é preciso que não se perca a agenda fundamental para a construção de um mundo essencialmente humanístico, fundado na dignidade de todos em sua diversidade, na justiça como propósito máximo de todo o exercício de poder e no progresso como meio de fazer avançar a civilização”.

Zakaria, defendendo a fé na liberdade, afirma: “Aceitar que o meio-termo é um aspecto inevitável da democracia é de fato uma virtude, porque leva em conta as paixões e aspirações do outro”. Ou seja, refere-se à virtuosidade humana como o caminho do meio, conforme salientado por Aristóteles.

Mesmo neste ano inaugurado sob grave e preocupante turbulência na vizinhança do Brasil, é preciso fazer do mundo, e da política, uma fonte de inspiração e fraternidade que permita a realização de nossas mais dignas potencialidades humanas – e isso não se conquista com investimento em medo, insegurança e ódio. Que possamos voltar a ter esperança de sermos melhor do que já fomos até aqui – como planetários e como brasileiros.