Caiado já chamou Kassab de “cafetão do Planalto”, mas apaga críticas ao novo aliado

A política brasileira voltou a expor, nos últimos dias, uma de suas marcas mais recorrentes: a distância entre o discurso do passado e as alianças do presente. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, apagou de suas redes sociais uma postagem feita em 2015 na qual atacava duramente o presidente do PSD, Gilberto Kassab, chamando-o de “cafetão do Palácio do Planalto”.
A exclusão do conteúdo ocorreu logo após Caiado anunciar sua filiação ao PSD, partido comandado por Kassab e que hoje abriga diferentes projetos presidenciais. À época da postagem, Caiado era senador pelo DEM e Kassab ocupava o cargo de ministro das Cidades no governo Dilma Rousseff. O ataque foi motivado por acusações de que Kassab estaria articulando a migração de parlamentares para fortalecer sua legenda.
A frase, publicada originalmente no então Twitter, afirmava que Kassab teria agido da mesma forma tanto com o PSD quanto com o PL, numa crítica direta ao que Caiado classificava como práticas de cooptação política. Mais de uma década depois, o conteúdo desapareceu das redes, em um gesto que simboliza a mudança de posição do agora aliado.
Questionado sobre as críticas do passado, Caiado minimizou o episódio e afirmou não pretender revisitar “notas de rodapé” de sua trajetória política. O governador sustenta que o foco atual está no projeto eleitoral e na construção de uma alternativa ao modelo político liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A filiação de Caiado ao PSD foi interpretada por analistas como parte da estratégia de pulverização da oposição, que busca evitar uma disputa excessivamente polarizada na eleição presidencial. O movimento também fortalece o capital político de Kassab, que passa a concentrar em seu partido ao menos três nomes com ambições nacionais, ampliando sua influência no tabuleiro eleitoral.
O episódio ilustra como a dinâmica política brasileira, especialmente em anos eleitorais, relativiza antigas divergências em nome de alianças estratégicas. Frases que antes simbolizavam embates ideológicos acabam arquivadas quando a lógica do poder exige recomposição e pragmatismo.