Juvenal Araújo: “A Batida que move o Mundo: a Contribuição Negra na Música do Brasil e do Mundo”

Dos tambores ancestrais ao rock, do gospel ao pop global, a herança negra que moldou estilos, culturas e gerações

Juvenal Araújo: “A Batida que move o Mundo: a Contribuição Negra na Música do Brasil e do Mundo”

Contar a história da música no Brasil e no mundo sem reconhecer a contribuição negra é apresentar um retrato incompleto da cultura humana. Ritmo, melodia, harmonia e emoção, elementos centrais da música moderna, foram profundamente moldados por povos negros ao longo dos séculos. Essa influência não está restrita a um ou outro gênero específico, mas atravessa praticamente todos os estilos musicais conhecidos hoje.

No Brasil, a presença negra é estruturante desde os primeiros sons que ecoaram no território. Os africanos trazidos durante o período escravocrata carregavam consigo tradições musicais riquíssimas, nas quais música, corpo, espiritualidade e comunidade formavam um conjunto inseparável. Esses saberes deram origem a manifestações como o batuque, o jongo, o maracatu e diversas expressões regionais que, com o tempo, influenciaram diretamente a formação da música popular brasileira.

O samba, frequentemente lembrado como principal herança negra, é apenas uma parte dessa história. Antes de ser celebrado como símbolo nacional, o samba foi perseguido e marginalizado, associado à criminalidade e às camadas mais pobres da sociedade. Ainda assim, resistiu, se transformou e tornou-se um dos maiores patrimônios culturais do país. Sua estrutura rítmica, sua cadência e sua forma de narrar o cotidiano brasileiro são marcas diretas da contribuição negra.

Mas a influência não se encerra aí. O choro, a música urbana do início do século XX, o pagode, o axé, o funk, o rap e inúmeras vertentes contemporâneas têm raízes profundas em padrões rítmicos africanos. Mesmo estilos considerados mais formais ou técnicos, muitas vezes vistos como distantes dessa origem, incorporam soluções musicais desenvolvidas por músicos negros, especialmente no uso da síncope, da improvisação e da expressividade rítmica.

No cenário internacional, a contribuição negra é ainda mais evidente. O blues, surgido a partir das experiências de dor, fé e resistência de comunidades negras nos Estados Unidos, tornou-se a base da música popular moderna. Do blues nasceram o jazz, o rock, o soul, o R&B e, mais tarde, o hip hop. É impossível falar de rock sem reconhecer que suas bases rítmicas, harmônicas e performáticas foram criadas por artistas negros.

O jazz, por sua vez, revolucionou a música mundial ao colocar a improvisação no centro do processo criativo. Criado por músicos negros, o jazz rompeu padrões, influenciou trilhas sonoras, música instrumental, publicidade e até a música erudita contemporânea. Sua complexidade técnica e liberdade artística demonstram que a música negra sempre esteve associada à inovação e à sofisticação.

Outro campo de enorme influência é o gospel. Originado dos cânticos religiosos entoados por negros escravizados, o gospel transformou a música religiosa em diversos países. Sua força vocal, sua carga emocional e sua capacidade de envolver o público influenciaram tanto ambientes religiosos quanto a música secular. Muitos grandes artistas globais tiveram sua formação musical em corais e igrejas negras, levando essa herança para palcos internacionais.

O pop moderno, frequentemente visto como neutro ou apenas comercial, também carrega profundas influências negras. Batidas, grooves, estruturas rítmicas e até a forma de cantar amplamente difundidas hoje têm origem em gêneros criados por artistas negros. A música que domina rádios, plataformas digitais e grandes eventos é, em grande parte, fruto dessa tradição.

Apesar de tamanha contribuição, o reconhecimento nem sempre foi proporcional. Muitos criadores negros tiveram seus estilos apropriados, suavizados ou reinterpretados por outros grupos, enquanto seus nomes permaneciam à margem. Reconhecer esse processo não é dividir a música, mas compreendê-la de forma mais honesta e completa.

A contribuição negra na música não é um detalhe histórico, mas o alicerce sobre o qual grande parte da produção musical contemporânea foi construída. Ritmo, emoção, criatividade e identidade atravessam séculos e continentes, conectando pessoas por meio do som.

Valorizar essa herança é valorizar a própria música. É reconhecer que aquilo que embala festas, cultos, celebrações e momentos de introspecção nasceu, em grande medida, da capacidade de transformar dor em arte e resistência em beleza. A música que move o mundo tem origem negra, e reconhecer isso amplia nossa compreensão sobre cultura, história e humanidade.