
Dados oficiais apontam queda abrupta nos investimentos estaduais em prevenção às chuvas antes dos temporais que devastaram Juiz de Fora e Ubá
O governo de Minas Gerais reduziu de forma significativa os recursos destinados à prevenção e mitigação de danos provocados por chuvas nos últimos dois anos. Dados disponíveis no Portal da Transparência do Estado indicam que os valores pagos para infraestrutura de combate a desastres climáticos caíram de cerca de R$ 135 milhões em 2023 para aproximadamente R$ 6 milhões em 2025, uma retração superior a 95%.
A redução ocorre em um contexto de forte impacto climático na Zona da Mata mineira. Desde o início dos temporais, ao menos 36 pessoas morreram nas cidades de Juiz de Fora e Ubá. Outras 33 permanecem desaparecidas, enquanto mais de 200 foram resgatadas com vida. A situação levou autoridades locais a decretarem estado de calamidade pública, reconhecido pelo governo federal.
Procurada, a administração estadual argumentou que as ações relacionadas ao período chuvoso não se restringem à Defesa Civil e envolvem diversos órgãos. Segundo nota oficial, o Estado afirma ter aplicado, desde 2022, mais de R$ 170 milhões em iniciativas de prevenção e resposta a desastres, incluindo recursos do Tesouro, emendas parlamentares, verbas do acordo de Brumadinho e fundos do Ministério Público de Minas Gerais.
No detalhamento orçamentário analisado, constam rubricas relacionadas a suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas, abrangendo gestão de desastres, mitigação de danos em rodovias e prevenção de eventos meteorológicos críticos. Em 2024, os pagamentos já haviam recuado para pouco mais de R$ 41 milhões. Neste ano, até os meses que antecederam a tragédia, os valores liquidados eram residuais.
O governador Romeu Zema (Novo) esteve em Juiz de Fora após os temporais e afirmou ter determinado mobilização imediata das equipes da Defesa Civil. Segundo ele, a prioridade foi salvar o maior número possível de pessoas. O vice-governador Mateus Simões anunciou a liberação de R$ 46 milhões para ações emergenciais, sendo R$ 38 milhões destinados a Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá.
Equipes do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura foram deslocadas para mapear áreas de risco, enquanto técnicos da Copasa e carretas com ajuda humanitária reforçaram o atendimento às vítimas. A Defesa Civil estadual também determinou a evacuação preventiva de 24 ruas em bairros considerados vulneráveis.
O governo federal reconheceu a situação de calamidade e informou o envio de equipe da Força Nacional do SUS, além de apoio da Defesa Civil Nacional.
Em nota, o Executivo mineiro destacou investimentos recentes na compra de kits de Defesa Civil para centenas de municípios, na estruturação do Centro de Inteligência em Defesa Civil e na construção de bacias de contenção na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Também projetou novos aportes superiores a R$ 40 milhões para 2026.
Especialistas em gestão pública ouvidos pelo Brasil no Centro ressaltam que a previsibilidade climática e o histórico recorrente de enchentes na Zona da Mata exigem planejamento contínuo, execução orçamentária consistente e integração entre Estado e municípios. A recorrência de tragédias amplia o debate sobre eficiência administrativa, prioridades fiscais e capacidade de prevenção em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes.
Enquanto as cidades afetadas ainda contabilizam perdas humanas e materiais, a discussão sobre orçamento, planejamento e responsabilidade pública deve permanecer no centro do debate estadual.