Na véspera de deixar a Fazenda para disputar SP, Haddad carrega alta da quebradeira e endividamento recorde no país

Na véspera de deixar o Ministério da Fazenda para assumir a pré-candidatura do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad se despede do cargo sob indicadores que apontam deterioração do ambiente econômico. Levantamento do Farol da Oposição, publicação do PSDB, mostra que sua passagem pela pasta foi acompanhada pelo avanço das recuperações judiciais e extrajudiciais, pelo recorde de empresas inadimplentes e pelo agravamento do endividamento das famílias.
Os dados reunidos na edição mais recente do boletim indicam que o país voltou a conviver com um nível de tensão financeira que não se via desde a recessão de 2015 e 2016. Em 2025, foram registrados 78 pedidos de recuperação extrajudicial, o pior resultado anual desde a entrada em vigor da nova legislação de falências, em janeiro de 2021. Em 2026, até 16 de março, já haviam sido contabilizados mais sete casos. Desde 2023, início do atual governo, o total acumulado chega a 194 pedidos, ante 37 nos dois anos anteriores.
A pressão já alcança grandes grupos econômicos. Na semana passada, Raízen e Grupo Pão de Açúcar recorreram à recuperação extrajudicial, mecanismo usado para renegociar dívidas com credores fora do rito tradicional da recuperação judicial. O movimento reforça a percepção de que a dificuldade de financiamento e o custo elevado do crédito passaram a afetar empresas de diferentes portes e setores.
No caso da recuperação judicial, o avanço também é expressivo. O Brasil soma atualmente 5.680 empresas nessa condição, modalidade em que há maior participação do Judiciário na reestruturação das dívidas. No segundo trimestre de 2023, dado mais antigo citado pelo levantamento, eram 4.223 companhias. A alta no período é de 34%.
O agronegócio aparece como o setor mais afetado. Hoje, 493 empresas da área estão em recuperação judicial, número que dobrou desde 2023. A leitura apresentada no levantamento é que muitas dessas companhias se endividaram para ampliar a produção e acabaram atingidas em cheio pelo ciclo de juros mais altos, que elevou o custo financeiro e reduziu a margem de manobra para reorganizar passivos.
O cenário de aperto fica ainda mais evidente nos indicadores de inadimplência. No fim de 2025, o país tinha 8,9 milhões de empresas com dívidas em atraso, recorde da série histórica. O volume total dos débitos chegou a R$ 213 bilhões, o dobro do registrado em 2022. Entre as companhias brasileiras listadas em bolsa, 24% já não conseguem gerar caixa suficiente para pagar os juros das próprias dívidas, enquanto 47% operam com alavancagem acima do nível considerado adequado.
No centro desse quadro está o peso do crédito. A taxa básica de juros será novamente discutida pelo Comitê de Política Monetária nesta quarta-feira, 18, em um ambiente em que o Brasil continua entre os países com juros reais mais altos do mundo. Para o setor produtivo, isso significa maior dificuldade para investir, refinanciar dívidas e sustentar operações em meio a um ambiente de menor previsibilidade.
O impacto, porém, não se limita às empresas. As famílias brasileiras também atravessam um período de sufocamento financeiro. Segundo os dados compilados pelo levantamento, 81,3 milhões de pessoas estão endividadas no país, o equivalente a seis em cada dez integrantes da população economicamente ativa. Em um ano, houve aumento de 9%, com mais 7 milhões de brasileiros entrando nessa condição. O total das dívidas alcança R$ 524 bilhões.
Outros indicadores reforçam a dimensão do problema. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor mostra que 79,5% das famílias se declaram endividadas, maior percentual da série histórica. Dentre elas, 29% têm contas em atraso e quase 13% afirmam não ter condições de quitar o que devem. Na prática, uma parcela crescente da renda dos brasileiros vem sendo absorvida pelo pagamento de dívidas, comprimindo consumo e capacidade de reação financeira.
Nas operações com recursos livres, o custo do crédito chega a 58% ao ano, muito acima da taxa básica. Essa diferença ajuda a explicar por que o endividamento se espalhou com tanta força entre consumidores e empresas. De um lado, o setor produtivo perde fôlego para sustentar atividade e emprego. De outro, as famílias ficam cada vez mais expostas à inadimplência, à renegociação permanente e à corrosão do orçamento doméstico.
No meio desse cenário, o presidente nacional do partido, Aécio Neves (PSDB-MG), resumiu a crítica da oposição à condução da política econômica. “A explosão de casos de quebradeira e inadimplência mostra que a economia e as famílias estão pagando o preço dos juros altos, resultado direto da irresponsabilidade fiscal do PT.”
Na reta final da passagem de Haddad pela Fazenda, os números compilados pelo Farol da Oposição desenham um quadro adverso para o ministro que se prepara para entrar na disputa paulista. O retrato é o de uma economia marcada por crédito caro, aumento da quebradeira, inadimplência recorde e famílias sob pressão crescente, em contraste com o discurso de estabilidade defendido pelo governo federal.