Rebeca Romero: “Igualdade salarial: uma decisão histórica que ainda revela o tamanho da desigualdade no Brasil”

Rebeca Romero: “Igualdade salarial: uma decisão histórica que ainda revela o tamanho da desigualdade no Brasil”

A decisão do Supremo Tribunal Federal de declarar constitucional a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres vai muito além de uma discussão jurídica. Ela toca em uma ferida antiga da sociedade brasileira: a desigualdade no mercado de trabalho.

Em pleno 2026, ainda é necessário reafirmar algo que deveria ser óbvio: mulheres que exercem a mesma função, com a mesma responsabilidade e competência, devem receber o mesmo salário que os homens. Isso não é privilégio. É justiça.

A lei aprovada em 2023 e agora validada pelo STF cria mecanismos mais rígidos de transparência salarial e responsabilização das empresas. Na prática, obriga grandes empregadores a divulgarem relatórios sobre critérios de remuneração e estabelece punições quando houver discriminação comprovada. A decisão também reforça que igualdade não pode ser apenas um princípio bonito escrito na Constituição; ela precisa existir na vida real.

Os dados citados durante o julgamento revelam uma realidade preocupante. Mulheres continuam recebendo menos, mesmo quando possuem qualificação equivalente ou superior. Em muitos casos, não se trata de produtividade, experiência ou mérito. Trata-se de uma cultura estrutural que, historicamente, valorizou menos o trabalho feminino.

E aqui existe um ponto importante: defender igualdade salarial não é uma pauta de esquerda ou direita. É uma pauta de dignidade humana, de justiça social e de fortalecimento da família. Afinal, quando uma mulher recebe menos pelo mesmo trabalho, quem sofre não é apenas ela. Sofre sua casa, seus filhos e toda a estrutura familiar.

Também é preciso reconhecer que muitas mulheres carregam jornadas duplas e até triplas. Trabalham fora, cuidam da casa, acompanham os filhos e ainda enfrentam barreiras invisíveis para crescer profissionalmente. Mesmo assim, continuam sendo cobradas a provar competência o tempo inteiro.

A decisão do STF não resolve automaticamente o problema. Leis são importantes, mas transformação cultural exige vigilância, coragem e mudança de mentalidade. Empresas precisarão rever práticas internas. A sociedade precisará abandonar preconceitos silenciosos. E as próprias mulheres precisarão ocupar espaços sem pedir desculpas por sua capacidade.

Ao mesmo tempo, é necessário equilíbrio no debate. Transparência salarial não pode se transformar em perseguição ideológica ao setor produtivo. O desafio é construir um ambiente de justiça sem sufocar a livre iniciativa. O Brasil precisa de empresas fortes, mas também de relações de trabalho mais justas e honestas.

A igualdade salarial não é sobre colocar homens contra mulheres. É sobre reconhecer valor, mérito e dignidade sem distinção de gênero.

Uma sociedade madura não teme a igualdade. Ela entende que oportunidades justas fortalecem toda a nação.