
Esquerda tentará colocar Flávio como entreguista; direita, mostrar que senador tem apoio e um grande movimento, que vai além das fronteiras brasileiras
Um dos principais elementos na definição do voto dos eleitores é a sensação de pertencimento. Ser integrante de um movimento, de uma história, de um grupo, tem sido algo definidor nas correntes de lealdade que levam à escolha eleitoral. Lulismo e bolsonarismo são exemplos brasileiros desse fenômeno que vem de muito longe – talvez desde os tempos neandertais. O encontro do senador Flávio Bolsonaro com o presidente americano Donald Trump, nesta terça-feira, 26, na Casa Branca, terá a carga simbólica de identidade da direita planetária.
Esse tipo de fidelidade é que explica o fato de Flávio Bolsonaro não ter caído expressivamente nas pesquisas após áudios comprometedores com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que havia se tornado o vilão oficial do país de maneira quase consensual. É o que explica também a verdadeira paixão de boa parte dos eleitores de Lula, a confiar cegamente em suas palavras. O outro lado da moeda é a rejeição que ambos carregam, também gigantesca.
Quando um político se torna um ídolo afetivo, ele pode tudo para os seus. Sempre será defendido. Por mais provas que existam, toda a acusação será vista como perseguição. Toda crítica, como preconceito. Toda ressalva como fraqueza. Lula e Jair Bolsonaro foram os únicos líderes brasileiros que conseguiram atingir esse grau de fidelidade, no mínimo desde o ditador Getúlio Vargas. Político sem trajetória sólida, sem a assertividade do pai, Flávio herda uma força simbólica muito grande apenas pela consanguinidade.
A foto com o Trump agora servirá como palco da batalha narrativa brasileira. À esquerda irão tentar colocar Flávio como entreguista, submisso, ou algo pior. Na direita, mostrar que apoiar o filho de Jair Bolsonaro é um grande movimento, que vai além das fronteiras brasileiras. Serve como um chamado da tribo. A esquerda não tem mais um líder mundial com tal capacidade de agregação, como teve com o cubano Fidel Castro, por exemplo, que inspirou sonhos de gerações.
Nessa disputa toda, tem razão o biólogo americano Edward Wilson, que, após uma vida observando o comportamento dos animais, em especial as formigas, considerava que, em muitos sentidos, nós humanos havíamos avançado pouco em relação aos seres mais primitivos. Isso significa gostarmos de ter líderes a nos conduzir, apreço em se submeter, e considerar quem age e pensa de maneira diferente como inimigos. Trump, com quem Flávio se encontrou hoje, é apenas mais um líder que leva esse tipo de ideia ao paroxismo.
Fabiano Lana
Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Brasil acima da lucidez”, em que discute a política, a história, a cultura e a sociedade brasileira.