Paulo Serra: “Resiliência climática: a política pública do século”

Paulo Serra destaca que a adaptação climática deve ser prioridade nas políticas públicas, citando Santo André como modelo de gestão preventiva e uso de tecnologia para enfrentar eventos extremos.

Paulo Serra: “Resiliência climática: a política pública do século”

Durante muito tempo, as discussões sobre mudanças climáticas ficaram restritas ao meio acadêmico, aos organismos internacionais e aos grandes fóruns globais. Hoje, essa realidade bate à porta de cada cidade, de cada gestor público e de cada cidadão. As mudanças no clima deixaram de ser uma previsão distante para se tornarem um desafio concreto do presente.

Os alertas da comunidade científica são cada vez mais contundentes. As previsões indicam a possibilidade de um dos fenômenos El Niño mais intensos já registrados. Historicamente, o El Niño altera os padrões climáticos em diversas regiões do planeta e, no Brasil, seus efeitos costumam ser extremos. Em algumas localidades, provoca ondas de calor severas, estiagens prolongadas e crises hídricas. Em outras, gera chuvas intensas, enchentes e desastres ambientais de grandes proporções.

Os brasileiros já vivenciaram recentemente os impactos dessa nova realidade. As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul deixaram um rastro de destruição, interromperam atividades econômicas, afetaram milhares de famílias e demonstraram como os eventos climáticos extremos podem impactar profundamente a vida das pessoas. Ao mesmo tempo, diversas regiões do País enfrentaram secas severas, queimadas e recordes de temperatura.

Diante desse cenário, uma conclusão é inevitável: a questão climática precisa deixar de ser tratada apenas como um tema ambiental e passar a ser encarada como uma política pública permanente. Assim como saúde, educação, segurança e mobilidade, a adaptação climática deve ocupar posição estratégica no planejamento das cidades e dos governos.

A grande pergunta já não é mais se eventos extremos acontecerão. A pergunta é: estamos preparados para enfrentá-los?

A resposta exige planejamento, investimento e, sobretudo, capacidade de antecipação. O poder público precisa evoluir de uma lógica puramente reativa para uma cultura de prevenção. Cada real investido em prevenção representa economia de recursos, preservação de patrimônio e, principalmente, proteção de vidas.

Foi exatamente com essa visão que Santo André iniciou, em 2019, um importante processo de transformação após as fortes chuvas que atingiram toda o Grande ABC. A experiência demonstrou que não bastava apenas responder às emergências. Era necessário criar mecanismos permanentes de monitoramento, previsão e gestão de riscos.

Nasceu então o Centro de Gerenciamento e Resiliência Climática, uma estrutura moderna que colocou a tecnologia a serviço da proteção da população. O equipamento reúne monitoramento em tempo real, inteligência artificial, sistemas integrados de informação e uma rede de 26 estações meteorológicas distribuídas estrategicamente por todo o território da cidade.

O objetivo é simples, mas extremamente poderoso: transformar dados em capacidade de resposta. Quanto maior a previsibilidade, maior a possibilidade de prevenir danos, orientar a população e mobilizar equipes antes que os problemas se agravem.

Essa experiência transformou Santo André em uma referência nacional em resiliência urbana. Mais do que uma obra ou um equipamento, trata-se de uma nova forma de governar, baseada em informação, tecnologia e tomada de decisão rápida.

Mas o desafio está longe de terminar. Os fenômenos climáticos evoluem, tornam-se mais intensos e exigem atualização constante das ferramentas de monitoramento e prevenção. Por isso, é fundamental continuar investindo em inovação, inteligência artificial, integração de dados e novas tecnologias capazes de ampliar a capacidade de previsão e resposta das cidades.

Ao mesmo tempo, é preciso ampliar o debate público sobre o tema. A adaptação climática não pode ser encarada como pauta ideológica, nem como assunto secundário. Trata-se de uma necessidade prática, que impacta diretamente a economia, a infraestrutura urbana, a saúde pública, a segurança e a qualidade de vida das pessoas.

As cidades serão cada vez mais protagonistas no enfrentamento das mudanças climáticas. E aquelas que conseguirem combinar planejamento, tecnologia e gestão eficiente estarão mais preparadas para proteger seus cidadãos.

O futuro já chegou. Os eventos extremos estão se tornando mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis. A boa notícia é que existem caminhos para enfrentar essa realidade. O exemplo de Santo André demonstra que é possível construir cidades mais resilientes, inteligentes e preparadas.

Mais do que discutir as mudanças climáticas, precisamos aprender a conviver com elas. E isso exige ação, investimento e políticas públicas permanentes. Afinal, quando o assunto é clima, a prevenção deixou de ser uma escolha. Ela se tornou uma obrigação.