Raul Christiano: “A diferença entre prometer e realizar”

O fortalecimento da gestão pública depende de planejamento, informações confiáveis e compromisso com políticas capazes de transformar promessas em resultados concretos para a sociedade.

Raul Christiano: “A diferença entre prometer e realizar”

A humanidade avançou porque aprendeu a planejar. Sonhar é indispensável. Ter coragem e vontade para fazer também. Mas nada disso basta se não houver estudo, método e responsabilidade. Não é o desejo, por si só, que transforma a realidade. É a capacidade de conhecer os problemas, estabelecer prioridades e organizar os meios para alcançar resultados.

Essa lição vale para qualquer atividade humana, mas ganha importância ainda maior quando falamos da administração pública. Infelizmente, grande parte das promessas políticas nasce apenas do desejo de agradar, sem qualquer compromisso com a viabilidade de sua execução. Promete-se muito, entrega-se pouco. Não porque falte boa vontade, mas porque faltaram planejamento, dados consistentes, previsão orçamentária e conhecimento da realidade.

Sempre defendi que vale mais um “não” explicado com honestidade do que um “sim” impossível de ser cumprido. A política precisa recuperar o compromisso com a verdade. Criar expectativas irrealizáveis apenas aumenta a descrença da sociedade e afasta ainda mais os cidadãos da vida pública.

Guardo uma lembrança do período em que trabalhei no Ministério da Educação. Naquele momento, o Brasil ainda carecia de informações confiáveis para desenhar política públicas capazes de enfrentar os enormes desafios da educação. Não conhecíamos com precisão o número de crianças fora da escola, as condições reais da oferta de ensino, a situação dos professores e as metas necessárias para universalizar o acesso com qualidade.

Foi quando o ministro Paulo Renato Souza deu uma nova dimensão ao INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), apoiando-se no trabalho de pesquisa coordenado pela educadora Eunice Durham. Pela primeira vez passamos a enxergar o Brasil como ele realmente era. Os dados deixaram de ser mera estatística para se transformarem em instrumentos de planejamento e formulação de políticas públicas.

Existe uma frase que resume bem esse aprendizado: os dados são excelentes servos, mas péssimos patrões. Precisamos de informações confiáveis para decidir melhor, mas jamais podemos substituir o discernimento humano por planilhas, algoritmos ou indicadores isolados. Dados sem contexto também produzem injustiças e decisões equivocadas.

O verdadeiro planejamento nasce quando números, experiência, sensibilidade e compromisso público caminham juntos. É assim que se administra uma cidade, um estado ou um país. É assim que se respeita o dinheiro do contribuinte, é assim que se constrói confiança.

O Brasil precisa superar a política do improviso. Precisamos trocar a cultura das promessas pela cultura das entregas, do planejamento e da responsabilidade. Menos discursos de ocasião e mais capacidade de execução. A boa política não se mede pelo número de anúncios, mas pelos resultados que transforma em qualidade de vida para as pessoas. É essa mudança de postura que devolverá credibilidade às instituições e renovará a confiança da sociedade na política como instrumento legítimo de transformação.

(*) Raul Christiano Sanchez é jornalista, escritor, ex-secretário executivo de Estado da Justiça e Cidadania, membro da Academia Santista de Letras.