Deputado preso no Rio havia garantido ‘cota de nomeações’ para traficante

Investigação da Polícia Federal revela troca de mensagens que indicam ligação entre gabinete parlamentar e integrante do crime organizado

Deputado preso no Rio havia garantido ‘cota de nomeações’ para traficante

Novos desdobramentos da operação da Polícia Federal que atingiu o Legislativo fluminense expõem um cenário ainda mais grave de infiltração do crime organizado em estruturas públicas. Mensagens apreendidas pelos investigadores indicam que o deputado estadual Thiago Rangel (Avante-RJ) teria reservado vagas em órgãos da área de educação para indicação de um traficante com histórico criminal.

De acordo com os documentos reunidos pela investigação, o parlamentar teria destinado cargos de auxiliar de serviços gerais para atender pedidos de Arídio Machado da Silva Júnior, conhecido como “Júnior do Beco”, apontado como integrante de organizações criminosas e condenado por crimes como tráfico de drogas e homicídio. A prática, segundo a apuração, envolvia a chamada divisão informal de vagas dentro da administração pública, com indicações feitas diretamente a partir de articulações políticas.

A conexão foi identificada a partir da análise de conversas entre o deputado e seu então chefe de gabinete, considerado pela Polícia Federal como operador do esquema. Nos diálogos, há referência direta à existência de vagas disponíveis na estrutura da educação e à destinação de parte delas para o grupo ligado ao criminoso. Em um dos trechos, o assessor solicita contato com o traficante para completar a lista de indicações, o que é prontamente atendido.

A investigação aponta que, após o envio dos nomes, houve alterações nas indicações por decisão do próprio beneficiário, evidenciando o nível de controle externo sobre cargos públicos. Parte dos beneficiados teria ligação direta com o entorno do traficante, ampliando a suspeita de uso da máquina pública para favorecer interesses ilegais.

Além das tratativas sobre nomeações, os investigadores também destacaram mensagens que levantam preocupações sobre a conduta do parlamentar. Em diálogos analisados, aparecem referências a ameaças e discussões sobre possíveis ações violentas contra terceiros, o que foi incluído no relatório como elemento indicativo de risco à ordem pública.

A prisão preventiva de Thiago Rangel foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, após pedido da Polícia Federal com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República. Na decisão, o magistrado apontou a necessidade de preservar a investigação e evitar interferências no andamento do processo.

Em nota, a defesa do deputado afirmou que ainda está tomando conhecimento integral do conteúdo da investigação e negou qualquer prática ilegal, afirmando que os esclarecimentos serão prestados no curso do processo. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro informou que está colaborando com as autoridades e reforçou compromisso com a transparência.

O caso reacende o alerta sobre a fragilidade de mecanismos de controle na administração pública e o risco de cooptação de estruturas estatais por grupos criminosos. Em um momento em que o país busca fortalecer instituições e recuperar a confiança da população, episódios como este reforçam a necessidade de rigor na fiscalização e responsabilidade na gestão pública.