
O presidente americano Donald Trump questionou, neste mês, com estridência, o processo eleitoral de seu próprio país , em tese uma das democracias mais consolidadas do mundo, com votações regulares desde 1789. Seu discípulo de caos, Jair Bolsonaro , está na cadeia por radicalizar essas ideias no Brasil, até ser condenado por tentativa de golpe de Estado.
Mas a tendência de rejeição de resultados eleitorais com base, muitas vezes, em teorias conspiratórias infundadas, não é exclusividade de políticos de direita do continente. Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro chegou a insinuar desobediência civil, para que o poder não fosse entregue ao vitorioso Abellardo de la Espriella, tido, pelo menos nos jornais, como “ultradireitista”.
No Peru, o candidato de esquerda, Roberto Sánchez , em um primeiro momento, insinuou não aceitar o resultado, caso fosse derrotado pela direitista Keiko Fujimori , filha do ditador Alberto Fujimori. Ele perdeu, mas, por sorte, desistiu de seus interesses . Na Nicarágua não há mais qualquer disfarce. O presidente Daniel Ortega, que nos anos 80 entusiasmou mentes e corações ao liderar o sandinismo contra o ditador Anastasio Somoza, avisou que o país nem terá mais eleições (pelo menos enquanto ele estiver com a força).
Irônico que os Estados Unidos, que viam com ares de galhofa a escullhambação geral na política latino-americana, hoje são os guias da balbúrdia. Assista ao ótimo “Bananas”, de Woody Allen, para terem uma ideia. A democracia, as instituições, o contraditório, parecem ter deixado de ser valores inabaláveis diante da vontade de quem se considera poderoso.
Talvez ainda precisemos de mais um tempo para saber as causas dessa aparência de antidemocracia que floresce em tantos países. Um dos suspeitos preferidos são as redes sociais. Num primeiro momento, as redes foram recebidas de maneira ingenuamente positiva. A partir do momento em que todos mantivessem voz, haveria um grande diálogo e, naturalmente, chegaríamos aos acordos racionais possíveis. Seria uma espécie de consagração das teses do filósofo alemão recém-falecido, Jürgen Habermas, a Teoria da Ação Comunicativa. Haveria, portanto, segundo os incautos, uma radicalização da democracia com as redes.
Ilusão. O processo se tornou mais desafiador. De um lado, como nunca, as redes permitiram que qualquer ideia, por mais bisonha que fosse, encontrasse um grupo de apoiadores. Por outro lado, pessoas que se sentem isoladas em suas concepções antissistema descoberto são parte de uma comunidade digital acolhedora. Muito mais poderoso do que eles mesmos imaginavam. Deixaram a timidez de lado e passaram a defendê-la publicamente, com agressividade.
No advento do século 21, vivemos, portanto, mais uma nova era das teorias conspiratórias, delirantes e regressivas. Negar procedimentos democráticos, como fazem Trump, Bolsonaro, Sanchez ou Ortega, é apenas uma parte desse tudo que ainda tentamos entender.