
A nota do Ministério das Relações Exteriores, divulgada esta semana, sobre os conflitos no Irã que resultaram, possivelmente, em milhares de mortes de manifestantes pacíficos, parece ter sido redigida para bater algum recorde de pusilanimidade. Basicamente, manda um “se virem” a quem vai às ruas, em geral desarmado, para protestar contra um regime violento, que é capaz de executar quem levanta a voz contra ele. Isso, claro, dito pelo Brasil em linguagem diplomática: “Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país…”, segundo o comunicado do governo Lula.
Bem diferente dos posicionamentos do mesmo governo brasileiro com relação à violência do exército de Israel em suas incursões em Gaza. Vamos rememorar um texto do Itamaraty, divulgado em maio do ano passado: “O governo brasileiro condena, nos mais fortes termos, o lançamento de nova ofensiva israelense na Faixa de Gaza, com intensificação dos bombardeios aéreos e expansão das operações terrestres, que provocaram, nos últimos dias, a morte de mais de 300 palestinos, incluindo mulheres e crianças, e forçaram deslocamento de mais de 60 mil pessoas”.
Dois pesos e duas medidas, já que em ambos os casos, Irã e Gaza, tratava-se de incursões de um exército poderoso contra uma população sem capacidade de defesa proporcional? Claro que sim. Vamos fazer um exercício: e se o Itamaraty dissesse que caberia apenas à população de Gaza decidir sobre o seu futuro, como fez com os iranianos, sem condenar o agressor?
O que se vê nos posicionamentos, à direita e à esquerda, com relação a conflitos internacionais, não são princípios, mas movimentos táticos de maneira a amaciar para aliados e fustigar eventuais adversários. Como se vidas inocentes em risco tivessem pesos diferentes para os governos e seus apoiadores.
Um adolescente morto este ano nas ruas de uma cidade do Irã vale menos do que uma criança bombardeada nas ruas de Gaza ou uma senhora morta na incursão do Hamas em território israelense pelo grupo terrorista Hamas? Essas pessoas valem mais ou menos do que crianças ucranianas mortas por mísseis russos ou famílias venezuelanas que tiveram que abandonar seu país para fugir da fome na Venezuela? O que podemos dizer de quem foi assassinado pela polícia anti-imigração de Donald Trump? São todas pessoas iguais em sua dignidade?
Não para os interesses do governo. A realpolitik dos Estados os faz ficar com as mãos amarradas perante os aliados ditatoriais e só é possível mostrar indignação quando um rival comete barbaridades. No caso do Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, a trava atual se dá por causa da aliança com os integrantes do Brics, o que inclui regimes ditatoriais como China, Rússia, Irã, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Etiópia. Nesse caso, a autoproclamada diplomacia ativa e altiva se esconde.
Podemos até entender – mas não apoiar – as decisões de Estado. A questão é que cidadãos e militantes, cegos ou fanáticos, costumam se comportar do mesmo jeito que seus líderes. São incapazes, muitas vezes, de condenar os autoritários por meio de parâmetros universais. Desmoralizam-se diariamente ao condenar com vigor ações de regimes com os quais discordam ideologicamente e relativizar atrocidades de governos pelos quais simpatizam. Então, voltemos à pergunta do título deste texto: Que tal ser contra as ações violentas e arbitrárias dos aiatolás, de Donald Trump, de Nicolás Maduro, de Benjamin Netanyahu, de Vladimir Putin, do grupo terrorista Hamas, e de todos os regimes autoritários, ao mesmo tempo, não importando suas ideologias? Tratar os seres humanos com parâmetros de universalidade, e não por conveniências e preferências políticas.