Fabiano Lana: “Opinião | Redução de danos do vexame de Messias envolve abandono de Alexandre de Moraes”

Derrota no Senado expõe fragilidade política do governo e abre nova disputa de narrativas sobre STF e bastidores do poder

Fabiano Lana: “Opinião | Redução de danos do vexame de Messias envolve abandono de Alexandre de Moraes”

O governo ainda bate cabeça para diagnosticar as razões da derrota acachapante da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). Como admitir que se tratou de uma falha de visão política do presidente Lula é uma constatação constrangedora para aliados e militância, foi preciso criar uma história alternativa. Lula não teria errado. Ocorre – tenta-se emplacar essa – que Messias iria punir os envolvidos com o caso do Banco Master, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, com representantes da direita, além do ministro Alexandre de Moraes, resolveram se unir para evitar a possibilidade.

É uma hipótese conveniente para servir de consolo aos sentimentos feridos. Porém, não foi a mirabolante atuação de Moraes ao lado de Alcolumbre que decidiu a parada. Desde antes da explosão do caso Master, as chances de Messias eram reduzidas. O Senado tinha outro nome em mente, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), e a sociedade estava atenta à tentativa de Lula de, pela terceira vez seguida, emplacar um nome para o STF por critérios de estrita fidelidade pessoal. O presidente almejava mais um defensor dele e do governo na Corte, não um guardião da Constituição, o que se tornou um desejo insustentável.

Para quem ainda está perplexo: Moraes teria agido para evitar que o ministro André Mendonça, nomeado por Jair Bolsonaro, ganhasse um aliado no Supremo, o Messias. Ambos, Mendonça e Messias, frequentam a mesma congregação evangélica e agiriam contra Moraes no caso Master. Mas daí a achar que essa aliança tática entre Moraes e Alcolumbre foi a questão decisiva que virou o jogo é reduzir a complexidade do acontecimento inédito há mais de um século – a recusa pelo Senado de um indicado do presidente para uma vaga no Supremo. Havia muito mais em jogo.

Desde as revelações de que a esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci Moraes, possuía um contrato ultra-milionário com o Banco Master, o ministro tornou-se incômodo para o governo. Num primeiro momento, a militância de esquerda o defendeu com vigor, ao partir para o ataque agressivo contra qualquer jornalista que revelasse algum fato que prejudicasse o ministro. Mas as evidências foram se acumulando de tal forma que foi preciso livrar-se de Moraes. Mas como?

A oportunidade apareceu na derrota de Messias. Como Moraes, em tese, agiu contra os interesses de Lula, talvez seria o momento de abandoná-lo. Alguns perfis que se engajaram na luta contra o jornalismo investigativo quando o tema era desvendar as tramas do Banco Master inverteram a linha de ação. Passaram a criticar o ministro do Supremo. “Xandão”, quando foi nomeado por Temer, em 2017, era um “fascista”, depois virou um salvador da democracia, e pode virar fascista novamente.

O apreço a Moraes, portanto, não era genuíno. Tornou-se herói para expressivo segmento da sociedade quando condenou os envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Era visto como um guardião legítimo de quem uma multidão (incluindo intelectuais, artistas, jornalistas, etc.) defende a qualquer preço: o presidente Lula. A partir do momento em que se revela que Moraes agiu contra o líder petista, perde o apoio que conquistou. Para não ser descartado de vez, tanto pela direita como pela esquerda, irá precisar de um novo posicionamento. Ainda possui um inquérito capaz de complicar a vida de muita gente: o das fake news.