Gastômetro aponta R$ 269 bilhões em medidas do governo Lula em ano eleitoral

O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já mobilizou R$ 269 bilhões em programas, benefícios, subsídios, renúncias fiscais e outras medidas ao longo de 2026, segundo o Gastômetro, ferramenta criada pelo Estadão para acompanhar ações e desembolsos do governo federal em um ano eleitoral. O levantamento ganhou nova dimensão após o anúncio do reajuste do Bolsa Família, que elevou o valor contabilizado na ferramenta.
O montante reúne iniciativas de naturezas distintas. A maior parcela está concentrada em linhas de crédito e subsídios destinados a setores específicos da economia, incluindo caminhoneiros e motoristas de aplicativos, além de financiamentos relacionados à habitação. Também entram na conta medidas que reduzem receitas da União, como benefícios tributários e alterações no Imposto de Renda.
O levantamento considera ainda programas sociais ampliados durante o ano, entre eles o Bolsa Família, o Pé-de-Meia e o Gás do Povo, além de iniciativas como o Luz do Povo e modalidades do Desenrola Brasil. Subvenções relacionadas a combustíveis também passaram a integrar a conta conforme foram autorizadas ao longo de 2026.
A divulgação do número ocorre a pouco mais de duas semanas do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, e reacende a discussão sobre o volume de medidas econômicas adotadas pelo governo em um ano de disputa presidencial.
Um dos exemplos mais recentes é o reajuste do Bolsa Família. Anunciado em setembro, o benefício mínimo passou de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio deverá subir de R$ 675 para R$ 777. A mudança terá impacto estimado em R$ 5,8 bilhões em 2026 e em cerca de R$ 22 bilhões no ano seguinte.
A equipe econômica sustenta que o reajuste está dentro das regras fiscais e será acomodado no Orçamento. O governo também afirma que a correção representa reposição da inflação acumulada e não aumento real dos benefícios.
Especialistas ouvidos pelo Estadão, porém, chamaram atenção para o efeito acumulado das diferentes medidas sobre as contas públicas. A preocupação apresentada é que incentivos, subsídios e linhas de crédito possam reduzir o espaço fiscal disponível para os próximos anos, especialmente quando parte dos custos permanece além do atual exercício.
A economista Selene Nunes, uma das autoras da Lei de Responsabilidade Fiscal, afirmou que a forma de contabilização de uma política pública não elimina seu custo econômico. Segundo ela, subsídios, assunção de riscos e operações de crédito podem transferir parte da conta para períodos posteriores.
O consultor de Orçamento do Senado Daniel Couri também apontou preocupação com a trajetória fiscal e defendeu maior atenção ao equilíbrio das contas públicas. Na avaliação dele, a combinação de estímulos em um período eleitoral pode antecipar consumo e atividade econômica enquanto parte dos custos permanece para exercícios seguintes.
O diretor executivo da Instituição Fiscal Independente do Senado, Marcus Pestana, destacou especificamente o impacto do novo Bolsa Família sobre o Orçamento de 2027. Segundo ele, o aumento das despesas obrigatórias pode reduzir o espaço disponível para investimentos públicos em áreas como infraestrutura, segurança, saneamento e tecnologia.
Estudo elaborado pelos economistas Marcos Mendes e Sergio Firpo, do Insper, também questionou mecanismos utilizados pelo governo para executar determinadas políticas por meio de fundos, bancos públicos e operações financeiras. Os pesquisadores argumentam que algumas dessas estruturas podem reduzir a transparência sobre o impacto fiscal efetivo das medidas.
Governo contesta classificação eleitoral
A Secretaria de Comunicação da Presidência rejeitou a classificação das medidas como gastos destinados à reeleição e afirmou que o levantamento reúne políticas públicas com objetivos diferentes.
Segundo o governo, programas como o Pé-de-Meia têm finalidade de combate à evasão escolar, enquanto medidas de segurança, crédito, proteção ao emprego e apoio a setores afetados por choques externos seriam respostas a necessidades econômicas e sociais.
A administração federal também argumenta que o calendário eleitoral não interrompe a execução de políticas públicas e que a legislação estabelece limites específicos para a atuação do governo durante a campanha.
O debate, portanto, não está apenas no volume financeiro contabilizado, mas também na natureza das medidas incluídas no levantamento. O próprio Gastômetro reúne operações que não representam necessariamente desembolso imediato do Tesouro, como determinadas linhas de crédito reembolsáveis e subsídios.
O dado de R$ 269 bilhões, atualizado após o reajuste do Bolsa Família, tornou-se, ainda assim, um dos principais números do debate sobre política fiscal e uso de recursos públicos na reta final da eleição de 2026.