Plínio Valério: “Guerra no Golfo, riscos para o Brasil e perdas que poderiam ter sido evitadas”

Se País tivesse desenvolvido uma política coerente para fertilizantes e se não fosse tão exposto a influências antinacionais, estaria muito mais preparado para enfrentar situação
Vimos há pouco o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres alertar que a guerra no Oriente Médio está fora de controle. É o reconhecimento, portanto, de que não se sabe quanto tempo vai durar, quais as estratégias os participantes armados terão condições de adotar e, principalmente, como serão afetadas todas as nações que nada têm a ver com as batalhas em si, o que, claro, inclui o Brasil.
Os efeitos desse confronto, mesmo que por enquanto restrito a uma área, afetam todo o mundo e, principalmente, os que precisam de importações desses territórios envolvidos na luta. É o caso do Brasil. Os efeitos mais visíveis são a espiral de alta dos preços do diesel e dos fertilizantes. Os problemas com abastecimento de óleo diesel são, até o momento, a face mais visível dos impactos que a guerra dos Estados Unidos e de Israel com o Irã podem provocar no País. Apesar dos subsídios dados, os preços do produto já sofreram aumento de 46%. Os caminhoneiros são os primeiros a ser atingidos, mas evidentemente a seguir vem todo o agro – uma colheitadeira consome de 200 a 400 litros por dia – e enfim toda a população, pois os custos são repassados a ela. https://www.smartadserver.com/ac?siteid=482434&pgid=1518426&fmtid=38614&tgt=foo%3Dbar&tag=sas_38614&out=amp-hb&isasync=1&pgDomain=https%3A%2F%2Fwww.acritica.com%2Fopiniao%2Fartigos%2Fguerra-no-golfo-riscos-para-o-brasil-e-perdas-que-poderiam-ter-sido-evitadas-1.400803&tmstp=0-35999051504050368914&__amp_source_origin=https%3A%2F%2Fwww.acritica.com
Menos visíveis para a população, mas tão ou mais graves, são os efeitos da guerra sobre os fertilizantes. O Oriente Médio é responsável por 30% dos fertilizantes comercializados no mundo, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado, o frete fica mais caro e aumenta o custo de chegada dos insumos. Ou seja, está à vista um aumento geral dos preços dos alimentos.
O Brasil importa cerca de 85,7% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional. Em 2025, foram 43,32 milhões de toneladas de fertilizantes importados contra uma produção nacional de 7,22 milhões de toneladas. Os tipos mais importados no país são os nitrogenados, fosfatados, potássicos e o NPK, um composto dos três nutrientes. Desses fertilizantes comprados pelo Brasil 15,8% vêm do Oriente Médio, mas todas as nossas compras são afetadas, por conta da cadeia produtiva. Um de nossos grandes fornecedores fora dessa região, a China, já suspendeu todas as vendas. E todos eles aumentaram os preços.
O mais doloroso é que, se o Brasil tivesse desenvolvido uma política coerente para o setor e se não fosse tão exposto a influências antinacionais, estaria muito mais preparado para enfrentar essa situação. Ela atinge em cheio o agro, mas é evidente que isso afeta a alimentação de todo o povo. Os custos proporcionalmente mais pesados recaem, claro, sobre os mais pobres.
Até agora, os preços dos fertilizantes subiram 30%. Essa alta deve se agravar e, pelas dificuldades de importação, o setor se tornará um dos mais atingidos – senão o mais atingido – pela crise econômica decorrente da guerra do Oriente Médio. Isso poderia ter sido evitado. Infelizmente, criaram-se entraves absurdos à produção nacional.
O caso mais notório, e visível, é do projeto Potássio de Autazes, que já poderia ter entrado em plena produção. Sua repercussão seria ainda maior. A exploração do potássio da região de Autazes poderia ser a redenção da pobreza do Amazonas e suprir, só ela, mais de um quinto da necessidade de fertilizantes no Brasil. Imagine-se o peso em uma situação como a que estamos vivendo.
Infelizmente, esse projeto já acumula 15 anos de atraso. Se implementada, a exploração da mina de potássio de Autazes geraria um boom de desenvolvimento para o Amazonas. Afinal, existe a previsão de se construir um porto fluvial na região. Incluiria a criação de 17 mil empregos diretos e indiretos, investimento bilionário e 30 programas socioeconômicos. Não são suposições aleatórias. Tudo isso está previsto formalmente no acordo com as aldeias Mura, próximas, feito para destravar o pacote de 21 licenças ambientais só concedidas pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, o IPAAM, em 2025.
O acordo seria implementado sem problemas, não fosse a ação dos santuaristas, centrados em entidades que são financiadas por instituições internacionais e que, evidentemente, tem interesses muito diverso dos brasileiros e dos amazônicos.
Comunidades indígenas sediadas em regiões fora da área da empresa Potássio do Brasil foram usadas, ao longo de década, para impedir a exploração do potássio. Por trás disso, além dos santuaristas nacionais, estão ONGs estrangeiras inclusive dos países que fornecem o minério para o Brasil.
Autazes produziria principalmente potássio. Em 2025, o consumo do País chegou a 49 milhões de toneladas, das quais 43 milhões importadas.
Há inclusive um pormenor surreal. Grande parte do potássio que o Brasil importa vem do Canadá. O pretexto usado pelos santuaristas é a alegação de que a produção impactaria áreas indígenas, mesmo estando a quilômetros da habitação mais próxima. E no Canadá é explorado em áreas indígenas. Lá exploram livremente e vendem para os brasileiros. Isso significa que o valor dessa produção é pago pelos brasileiros, inclusive os indígenas brasileiros, e faturado pelos indígenas canadenses. Esse valor, claro, inclui fretes elevados, pois o percurso seguido pela carga passa por Vancouver, pelo Canal do Panamá, pelo porto do Paranaguá, até chegar às áreas de consumo brasileiras, do interior paulista a Mato Grosso e Rondônia.
Tudo isso está acontecendo porque o Ibama, o Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva e companhia nos impedem de usufruir de uma riqueza que Deus nos deu. Resta aos brasileiros ficar mais uma vez de joelhos e aceitar esse absurdo.
Na verdade, depois de 15 anos de luta, em 2025 a Potássio do Brasil conseguiu as licenças do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas para a construção de sua planta de exploração. Conseguiu também o acordo com os Mura, os indígenas que estão mais próximos. Produzirá 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio por ano, suprindo 20% do consumo anual do Brasil. Isso terá um impacto comparável ao da criação da Zona Franca de Manaus. Mas as barreiras impostas pelos santuaristas ainda persistem, apesar do acordo, infelizmente.
* Plínio Valério é senador pelo Amazonas