Política com conteúdo. Centro com clareza.
segunda-feira, 28 de setembro
Assinar
Agora
Medidas de Lula às vésperas da eleição exigem ajuste de R$ 33 bilhões no Orçamento de 2027Trump e Xi anunciam avanço comercial e envio de pandas aos EUA após encontro em WashingtonGreve da Caixa: agências retomam atendimento parcial após decisão do TSTLula tem 39% e Flávio 34% no 1º turno, diz pesquisa QuaestGilmar Mendes cobra investigação sobre precatórios do Banco Master e cita contrato de R$ 427 milhões
Política

Instituto Veritá tem pesquisas barradas em pelo menos 15 estados e acumula multas nas eleições de 2026

Por Brasil no Centro Publicado em 18 de setembro de 2026 às 20:28 8 min de leitura
Compartilhar
Instituto Veritá tem pesquisas barradas em pelo menos 15 estados e acumula multas nas eleições de 2026

A sequência de decisões da Justiça Eleitoral envolvendo pesquisas do Instituto Veritá voltou a colocar sob escrutínio a metodologia e a transparência dos levantamentos realizados pela empresa durante as eleições de 2026. Ao longo do ano, diferentes Tribunais Regionais Eleitorais determinaram a suspensão ou proibiram a divulgação de pesquisas do instituto, em processos que apontaram problemas distintos, como inconsistências na composição das amostras, falhas no detalhamento territorial, divergências em questionários e ausência de informações exigidas para a fiscalização.

O quadro ganhou novos episódios nas últimas semanas. Em Mato Grosso, por exemplo, o Tribunal Regional Eleitoral suspendeu, em 16 de setembro, a divulgação da pesquisa MT-06319/2026, que avaliava as disputas para governador e Senado. A decisão identificou divergências entre o questionário registrado no sistema da Justiça Eleitoral e aquele que seria aplicado aos entrevistados. Entre os problemas apontados estava a ausência do candidato Beny Godoy (Agir) na relação de nomes para o Senado, embora sua candidatura ainda estivesse sob análise judicial. O levantamento também continha perguntas sobre a eleição presidencial, apesar de o registro mencionar apenas governador e senador.

O caso de Mato Grosso se soma a uma série de decisões anteriores. No Pará, o Ministério Público Eleitoral identificou que os percentuais de escolaridade utilizados pelo Veritá não correspondiam aos dados da fonte pública indicada pelo próprio instituto. A Justiça Eleitoral considerou a pesquisa PA-04167/2026 irregular e juridicamente não registrada, determinando a suspensão de sua divulgação e aplicando multa de R$ 53,2 mil.

Segundo a decisão, o instituto afirmou ter utilizado dados da Pnad Contínua, do IBGE, para estabelecer as cotas de escolaridade. A checagem feita pelo Ministério Público, porém, encontrou diferenças entre os números apresentados pelo Veritá e os dados disponíveis na base oficial. O instituto não apresentou, segundo o MP Eleitoral, a memória de cálculo que permitisse explicar como havia chegado aos percentuais utilizados na amostra.

Problemas diferentes em diferentes estados

Em Rondônia, a Justiça Eleitoral suspendeu a pesquisa RO-03403/2026 e posteriormente determinou a interrupção definitiva de sua divulgação. Entre os problemas apontados estava a ausência da quantidade de entrevistados por setor censitário e a falta do nível de confiança nas peças utilizadas para apresentar os resultados. A pesquisa tinha 1.220 entrevistas e custo declarado de R$ 93.940.

O tribunal considerou que a ausência das informações dificultava a fiscalização do plano amostral e a verificação da distribuição das entrevistas. O instituto argumentou que, por utilizar entrevistas telefônicas, não seria possível identificar os entrevistados por setor censitário. A justificativa, entretanto, não foi considerada suficiente para afastar as exigências previstas na regulamentação eleitoral.

O Amazonas também registra uma sequência de questionamentos. Em agosto, o TRE-AM suspendeu a pesquisa AM-00886/2026 por problemas relacionados à identificação territorial da amostra. A decisão apontou que a indicação genérica de que as entrevistas ocorreram em “todos os bairros” não permitia verificar adequadamente como os entrevistados estavam distribuídos pelo território.

Em outro processo envolvendo o Amazonas, uma perícia mencionada em decisão judicial apontou irregularidades estruturais e falhas técnicas na pesquisa AM-03387/2026. O documento também registra questionamentos relacionados à proteção de dados e à consistência do levantamento.

Amostras e distribuição territorial também foram questionadas

As decisões judiciais não se concentram apenas em problemas formais de registro. Em diferentes estados, magistrados analisaram a própria composição das amostras utilizadas pelo instituto.

No Espírito Santo, por exemplo, uma decisão questionou a concentração das entrevistas na capital. Segundo o levantamento citado em reportagens sobre o caso, Vitória teria concentrado parcela significativamente superior das entrevistas em relação à sua participação no eleitorado estadual, enquanto municípios com grandes contingentes de eleitores teriam ficado sem entrevistas.

Em maio, o TRE de Rondônia já havia suspendido outra pesquisa do Veritá depois de identificar sete pontos que precisavam ser esclarecidos, incluindo divergências no período de coleta, informações sobre municípios e bairros pesquisados, procedimentos de conferência dos questionários, justificativa para o fator de ponderação e versão do questionário aplicado. Naquela decisão, porém, a Justiça deixou claro que o autofinanciamento da pesquisa, isoladamente, não configurava irregularidade.

Esse ponto é relevante porque mostra que as decisões judiciais não estabelecem uma conclusão única sobre todos os levantamentos do instituto. Cada processo analisa uma pesquisa específica e as irregularidades alegadas naquele caso.

Caso do Amazonas chamou atenção por dados repetidos

Um dos episódios mais graves relatados durante o ano ocorreu justamente no Amazonas. Segundo a análise técnica apresentada em processo judicial, uma parcela expressiva da base pública da pesquisa apresentava registros repetidos em sequência.

A decisão mencionada na reportagem sobre o caso registrou a existência de aproximadamente 380 pares consecutivos de linhas idênticas em todos os campos analisados. O padrão teria alcançado cerca de 62% da amostra declarada, de 1.220 entrevistas. A análise foi considerada incompatível com a realização de entrevistas independentes nos moldes descritos pelo instituto.

A existência de dados duplicados não significa, por si só, uma conclusão definitiva sobre fraude. O que consta dos processos é que o padrão identificado foi considerado suficientemente relevante para justificar questionamentos judiciais sobre a integridade daquele levantamento.

Questionários também entraram no radar

Outro tipo de problema apareceu no Distrito Federal. Em uma representação contra o Veritá, foram questionadas perguntas feitas antes da avaliação sobre a governadora Celina Leão (PP). Segundo a decisão citada na reportagem, a sequência do questionário poderia produzir um efeito de indução sobre a percepção do entrevistado antes da pergunta de intenção de voto.

O episódio ilustra uma questão central na realização de pesquisas eleitorais: não basta definir uma amostra numericamente adequada. A formulação das perguntas, a ordem em que são apresentadas e a maneira de seleção dos entrevistados também podem interferir na qualidade do resultado.

Em outros estados, o instituto também foi questionado por apresentar cenários com candidatos cuja situação eleitoral já havia mudado ou que estavam em condição de inelegibilidade. Esses episódios levaram tribunais a avaliar se os levantamentos reproduziam adequadamente o cenário eleitoral existente no momento da coleta.

Número de decisões aumentou durante o ano

A quantidade de processos envolvendo o Veritá tornou-se particularmente expressiva em 2026. Levantamentos publicados em agosto apontavam decisões contra pesquisas do instituto em 13 estados e no Distrito Federal. Outros levantamentos jornalísticos chegaram a contabilizar ocorrências em 18 estados, dependendo do critério utilizado para considerar suspensões, proibições e decisões provisórias.

O próprio Veritá mantém em seu site uma relação de pesquisas realizadas em diversos estados durante o atual ciclo eleitoral. A lista mostra levantamentos recentes em praticamente todas as regiões do país, inclusive pesquisas nacionais e estaduais divulgadas em setembro.

A amplitude da atuação ajuda a explicar também por que o instituto aparece com frequência no debate eleitoral. Quanto maior o número de pesquisas realizadas, maior é a exposição a contestações judiciais e a diferentes interpretações dos tribunais. Ainda assim, a sucessão de decisões envolvendo problemas metodológicos e de transparência é um dado objetivo que precisa ser considerado por quem acompanha seus números.

Veritá contesta críticas e defende metodologia

O instituto contesta as acusações e afirma que possui metodologia própria e histórico de acertos. Em manifestação divulgada anteriormente, o proprietário do Veritá, Adriano Silvoni, afirmou que parte das decisões judiciais foi posteriormente revertida e sustentou que o instituto realiza grande volume de pesquisas por iniciativa própria.

Silvoni também afirmou que o Veritá possui “metodologia sólida” e argumentou que seus resultados já teriam apresentado desempenho considerado positivo em eleições anteriores. A empresa continua registrando e divulgando novos levantamentos em 2026.

A existência de decisões favoráveis ao instituto em alguns processos e a eventual reversão de decisões em instâncias superiores também precisam ser consideradas para evitar uma conclusão generalizada sobre todos os levantamentos realizados pela empresa.

O que permanece documentado, entretanto, é que diferentes pesquisas do Veritá foram suspensas ou consideradas irregulares pela Justiça Eleitoral ao longo de 2026, por motivos que vão desde problemas na composição da amostra até falhas na apresentação dos questionários e ausência de informações necessárias à fiscalização.

Para o eleitor, o episódio reforça a importância de olhar não apenas para o percentual apresentado por uma pesquisa, mas também para o número de entrevistas, período de coleta, margem de erro, nível de confiança, metodologia, distribuição geográfica da amostra, questionário e registro na Justiça Eleitoral.

Em uma eleição marcada por grande volume de levantamentos e forte disputa pela interpretação dos números, transparência e possibilidade de auditoria são elementos essenciais para que pesquisas cumpram sua função de retratar, com o máximo de rigor possível, o comportamento do eleitorado.