Jair Bolsonaro se surpreendeu com virada e teme possível prisão de Flávio Bolsonaro, diz jornalista

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu com surpresa e preocupação a derrota do filho Flávio Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. Segundo informações publicadas nesta terça-feira (27) pela jornalista Bela Megale, em sua coluna no jornal O Globo, o resultado eleitoral abalou o ex-presidente, que agora teme a possibilidade de prisão do senador.
Flávio relatou a aliados que o pai ficou bastante contrariado com a derrota. Pessoas próximas a Jair Bolsonaro afirmaram à jornalista que ele não esperava a virada eleitoral de Lula, que havia terminado o primeiro turno atrás do candidato do PL.
A preocupação da família aumentou diante dos desdobramentos de investigações conduzidas pela Polícia Federal e de uma decisão tomada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), um dia depois da eleição.
Na segunda-feira (26), Flávio foi intimado a entregar seus passaportes e ficou proibido de deixar o Brasil. A ordem judicial foi determinada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz, com quem mantém uma relação de amizade.
Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília, recebeu a visita do filho na manhã de segunda-feira. Posteriormente, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais em que relatou ter sido abordado por policiais federais quando se deslocava para visitar o pai.
O senador afirmou que jamais manifestou intenção de deixar o país e classificou a determinação como uma tentativa de intimidação política.
Segundo Flávio, a decisão de Moraes teria sido motivada por declarações feitas por seu irmão Eduardo Bolsonaro (PL), que, antes do segundo turno, defendeu publicamente que o candidato deixasse o Brasil caso fosse derrotado.
Em entrevista concedida a um programa norte-americano na sexta-feira (23), Eduardo afirmou considerar que a saída do país seria uma alternativa para Flávio diante de uma eventual vitória de Lula.
O senador, entretanto, declarou que não havia discutido essa possibilidade e anunciou que cumpriria a determinação judicial, ao mesmo tempo em que buscaria contestá-la pelos meios legais.
A decisão de Moraes foi tomada em um processo que tramita sob sigilo. Por essa razão, a íntegra dos fundamentos utilizados pelo ministro não está disponível publicamente.
A investigação que motivou a restrição de viagem apura possíveis irregularidades financeiras relacionadas a empresas e operações envolvendo Willer Tomaz.
A Polícia Federal procura esclarecer a existência de movimentações suspeitas e eventuais mecanismos de ocultação de recursos em negócios ligados ao setor de apostas.
Entre os elementos examinados pelos investigadores estão informações sobre uma conta bancária vinculada à empresa Alcazar Holdings, relacionada ao advogado, na qual Flávio teria aparecido como usuário com acesso privilegiado.
A apuração busca determinar a natureza desse vínculo e se o parlamentar participou de operações financeiras realizadas pela empresa.
Flávio e Willer negam ter mantido negócios conjuntos ou participado de movimentações irregulares. A defesa do senador sustenta que a relação entre ambos é pessoal e não envolve participação em atividades financeiras ilícitas.
Na semana passada, Moraes também determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores ligados ao advogado, como parte das medidas cautelares adotadas na investigação.
O valor representa o limite estabelecido pela decisão judicial, não uma comprovação de que esse montante tenha sido efetivamente localizado ou bloqueado.
Além desse procedimento, Flávio é investigado em outro inquérito que examina possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Nesse caso, a Polícia Federal apura a participação do senador em negociações com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para obtenção de recursos destinados ao projeto cinematográfico.
A investigação está sob a relatoria do ministro André Mendonça, do STF, e envolve a análise de mensagens, movimentações financeiras e informações sobre a origem dos valores utilizados na produção.
Flávio nega ter cometido crimes e afirma que as tratativas sobre o filme envolveram recursos privados.
Nenhuma das investigações mencionadas representa, por si só, uma condenação criminal do senador. A eventual adoção de novas medidas cautelares depende de decisões judiciais fundamentadas.
A apreensão dos passaportes também não significa que tenha sido decretada sua prisão.
Segundo a apuração de Bela Megale, entretanto, a possibilidade de uma medida mais severa passou a integrar as preocupações de Jair Bolsonaro e das pessoas responsáveis pela defesa jurídica de seu filho.
A situação judicial de Flávio também influenciou as discussões sobre os próximos passos políticos do senador após a derrota presidencial.
Na segunda-feira, o parlamentar passou parte do dia reunido com integrantes de sua equipe jurídica para avaliar as medidas que pretende adotar em relação ao resultado eleitoral e às investigações em andamento.
De acordo com a coluna de O Globo, a orientação inicial foi abandonar uma contestação direta da totalização dos votos e concentrar a atuação em instrumentos jurídicos relacionados à campanha adversária.
Entre as possibilidades discutidas está um pedido de cassação da chapa formada por Lula e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), sob a alegação de abuso de poder político e econômico durante o processo eleitoral.
A campanha de Flávio questiona especialmente medidas anunciadas pelo governo federal na reta final da disputa, incluindo a ampliação de benefícios sociais e mudanças no calendário de pagamentos.
Essas alegações deverão ser examinadas pela Justiça Eleitoral caso sejam formalmente apresentadas, não constituindo comprovação automática de irregularidades.
A estratégia representa uma mudança em relação ao primeiro pronunciamento de Flávio após a derrota, quando o senador afirmou que não reconheceria o resultado e que pediria a anulação da eleição em razão da prorrogação do horário de votação determinada pelo STF.
A vitória de Lula foi proclamada pelo Tribunal Superior Eleitoral, e o presidente reeleito recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio.
Mesmo após a eleição, a situação política do senador permanece acompanhada por questões judiciais que poderão se estender ao longo dos próximos meses.
Seu mandato no Senado termina em fevereiro de 2027. A partir daí, Flávio deixará de ocupar cargo eletivo, embora determinadas investigações relacionadas ao exercício de suas funções possam permanecer sob competência do Supremo, conforme as regras atuais sobre foro por prerrogativa de função.
A possibilidade de perder o cargo e enfrentar novos desdobramentos judiciais integra o cenário discutido pela família Bolsonaro após a derrota nas urnas.
Segundo os relatos obtidos por Bela Megale, o principal receio de Jair Bolsonaro neste momento não está mais concentrado apenas no resultado presidencial, mas nas consequências que as investigações poderão trazer para o futuro político e pessoal de Flávio.
Até esta terça-feira (27), as informações divulgadas não apontavam a existência de uma ordem de prisão contra o senador. A preocupação atribuída ao ex-presidente decorre dos processos em andamento e das medidas cautelares já determinadas pelo Supremo.