
A assinatura do Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia, em janeiro de 2026, encerra um dos ciclos diplomáticos mais longos e relevantes da história recente do Brasil. Mais do que um tratado comercial, trata-se da consolidação de uma visão estratégica de país construída ao longo de décadas e sustentada por uma rara continuidade institucional.
Em um cenário internacional marcado pela fragmentação geopolítica, pelo avanço do protecionismo e pela crescente polarização entre Estados Unidos e China, o acordo firmado entre os dois blocos envia uma mensagem clara: ainda é possível avançar por meio do multilateralismo, da previsibilidade e da integração baseada em regras.
Não se trata de um movimento circunstancial. A gênese desse acordo remonta aos anos 1990, quando o Brasil iniciou um processo de modernização econômica e reposicionamento internacional. O Protocolo de Ouro Preto, assinado em 1994, no governo Itamar Franco, conferiu personalidade jurídica ao Mercosul e consolidou sua arquitetura institucional básica. A partir de 1995, sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso, essa base foi transformada em estratégia de inserção internacional.
Foi durante o governo FHC que a política externa brasileira abandonou a lógica do isolamento defensivo e adotou o conceito de regionalismo aberto. A integração regional deixou de ser vista como proteção contra o mundo e passou a ser tratada como plataforma de competitividade global. O Mercosul, nesse contexto, tornou-se instrumento central para negociar acordos de maior alcance, permitindo ao Brasil atuar como protagonista e não como espectador no comércio internacional.
A aproximação com a então Comunidade Europeia não era apenas comercial. Envolvia valores políticos, fortalecimento institucional e a construção de um contrapeso estratégico em um sistema internacional cada vez mais assimétrico. O Acordo de Madri, firmado em 1995, e o lançamento formal das negociações em 1999 expressaram essa visão de longo prazo, ao estabelecer as bases para uma associação birregional fundada em democracia, previsibilidade e cooperação.
O mérito da aprovação definitiva em 2026 não pertence a um único governo. Ao contrário, é resultado da resiliência de uma política de Estado que atravessou administrações de diferentes orientações ideológicas, sobreviveu a crises econômicas globais e resistiu a pressões protecionistas internas e externas. A conclusão das negociações e a ratificação final refletem a solidez do corpo diplomático brasileiro e a continuidade institucional construída ao longo do tempo.
A cerimônia de assinatura em Assunção teve forte simbolismo. Realizada na cidade onde nasceu o Mercosul, reafirmou o bloco como plataforma válida de inserção internacional em um momento de questionamentos e tensões regionais. A presença de líderes politicamente diversos reforçou o caráter suprapartidário do acordo e sua natureza estrutural.
Do ponto de vista econômico, os impactos são relevantes e duradouros. O acordo cria a maior zona de livre comércio do mundo, conectando cerca de 720 milhões de pessoas e aproximadamente 20% da economia global. Para o Brasil, abre-se um mercado de alto poder aquisitivo para o agronegócio, com cotas expressivas para carnes, açúcar, etanol, grãos, frutas e produtos de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, a indústria nacional terá acesso facilitado a máquinas, equipamentos e insumos tecnológicos essenciais para sua modernização.
O tratado foi desenhado com mecanismos de assimetria e proteção. A liberalização tarifária segue cronogramas graduais, permitindo a adaptação da indústria brasileira à concorrência europeia, e inclui salvaguardas para setores sensíveis. Essa engenharia negociadora afasta leituras simplistas que opõem abertura comercial e defesa do interesse nacional.
No campo ambiental, outro ponto sensível, o acordo incorpora compromissos explícitos com o Acordo de Paris e com o combate ao desmatamento ilegal. O instrumento adicional negociado recentemente reforça a soberania regulatória dos países do Mercosul e reconhece o papel das autoridades nacionais na fiscalização ambiental. Sustentabilidade, nesse contexto, deixa de ser obstáculo e passa a ser ativo estratégico.
Há desafios pela frente. A fase de ratificação nos parlamentos europeus e sul-americanos exigirá articulação política, diálogo com setores produtivos e acompanhamento rigoroso da implementação. Resistências existem, sobretudo em alguns países europeus, mas refletem temores setoriais que foram parcialmente acomodados no próprio desenho do acordo.
O significado mais profundo desse desfecho é estratégico. O Acordo Mercosul–União Europeia reafirma que o Brasil não está condenado à periferia do comércio global nem à dependência de um único polo de poder. Ele recoloca o país no centro das grandes negociações internacionais, fortalece o Mercosul como projeto político e econômico e confirma que integração, democracia e desenvolvimento podem caminhar juntos.
Em tempos de incerteza, essa não é apenas uma vitória diplomática. É a confirmação de que políticas públicas pensadas com visão de longo prazo, base técnica sólida e compromisso institucional sobrevivem às mudanças de governo e, ao final, produzem resultados concretos.
Jorge Lopes Cançado é especialista em marketing político e comunicação digital e atua na análise de cenários e na formulação de narrativas para partidos e lideranças políticas.