Juvenal Araújo: “Quando o silêncio mata: a morte de Manoel Rocha Neto e os limites da nossa indiferença social”

O racismo estrutural não grita, mas age todos os dias — e cobra vidas, inclusive de quem dedica a própria trajetória a cuidar do outro

Juvenal Araújo: “Quando o silêncio mata: a morte de Manoel Rocha Neto e os limites da nossa indiferença social”

A morte de Manoel Rocha Neto, psicólogo e mestrando em psicologia, aos 32 anos, não pode ser tratada como um fato isolado nem como mais uma tragédia pessoal sem contexto. Trata-se de uma perda que expõe, de forma dura e incômoda, os mecanismos silenciosos que ainda operam na sociedade brasileira e que, muitas vezes, determinam quem vive, quem sofre e quem morre. Quando um jovem profissional da saúde mental tem sua vida interrompida, não estamos diante apenas de um drama individual, mas de um alerta coletivo.
Manoel representava uma geração que apostou no conhecimento, na formação acadêmica e no compromisso com o cuidado humano como caminhos legítimos de ascensão social e contribuição pública. Psicólogo, pesquisador em formação, alguém que escolheu compreender a dor alheia como missão profissional. Ainda assim, sua trajetória não foi suficiente para protegê-lo de um ambiente social marcado por desigualdades profundas, onde a cor da pele, o território e a origem continuam pesando mais do que o currículo ou o caráter.
O racismo no Brasil raramente se apresenta de forma explícita. Ele não precisa de placas, leis segregacionistas ou discursos inflamados para produzir efeitos. Seus tentáculos são sutis e persistentes: estão na desconfiança automática, na vigilância constante, na exposição maior à violência, na fragilidade das redes de proteção e na naturalização de determinadas mortes. É um racismo que não se anuncia, mas que opera todos os dias, moldando oportunidades e riscos.
Há quem insista em tratar esses episódios como fruto exclusivo do acaso ou da criminalidade genérica. Esse tipo de leitura confortável ignora um dado essencial: a violência no país não atinge todos da mesma forma. Jovens negros, mesmo quando escolarizados, empregados e socialmente ativos, continuam mais expostos a situações de risco. Isso não é opinião, é um padrão histórico que atravessa décadas e se reproduz justamente porque raramente é enfrentado com seriedade.
Outro aspecto pouco discutido é o impacto psicológico desse contexto. Viver sob constante estado de alerta, precisar reafirmar valor o tempo todo e lidar com barreiras invisíveis produz desgaste emocional. O adoecimento mental não surge apenas de questões individuais, mas também de ambientes hostis e desiguais. Quando a sociedade falha em reconhecer isso, empurra indivíduos para limites extremos, muitas vezes sem oferecer suporte adequado.
A morte de Manoel também escancara uma contradição: enquanto o discurso público afirma valorizar a vida, a educação e a saúde mental, a prática cotidiana tolera a exclusão, a violência seletiva e a negligência institucional. Não basta exaltar profissionais da psicologia em campanhas pontuais se, na realidade, não há políticas consistentes de prevenção, proteção e cuidado, especialmente para os mais vulneráveis.
Evitar que tragédias como essa se repitam exige escolhas práticas, e não slogans. A primeira delas é o fortalecimento real da segurança pública, com foco em prevenção, inteligência e presença do Estado onde ele historicamente se omite. Segurança não pode ser apenas reação após o dano; precisa ser planejamento, dados e ação antecipada.
Outra medida indispensável é a educação baseada em responsabilidade social e respeito. Não se trata de doutrinação, mas de ensinar valores básicos de convivência, dignidade humana e resolução pacífica de conflitos. Sociedades que educam melhor, violentam menos. Esse é um fato amplamente observado no mundo inteiro.
Também é fundamental ampliar o acesso à saúde mental. Atendimento psicológico não deve ser privilégio, mas política pública contínua. Cuidar da mente é investir em prevenção de violência, em bem-estar coletivo e em redução de conflitos sociais. Fortalecer essa área é uma forma concreta de honrar a memória de profissionais como Manoel Rocha Neto.
Por fim, há uma responsabilidade que não pode ser terceirizada: a da sociedade civil. Famílias, instituições, universidades e ambientes de trabalho precisam abandonar a neutralidade confortável. Racismo não se combate apenas com indignação momentânea, mas com práticas diárias de justiça, mérito e respeito. Silenciar diante da desigualdade é, na prática, permitir que ela continue.
A morte de Manoel Rocha Neto não deve ser lembrada apenas pela dor que causou, mas pelo debate que precisa provocar. Um país que perde jovens qualificados para a violência compromete seu próprio futuro. Enfrentar os tentáculos do racismo não é uma pauta ideológica, é uma necessidade humana, social e racional. É escolher a vida antes que o silêncio volte a matar.