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Opinião

Luiz Paulo Vellozo Lucas: “A coluna do Castello”

Por Luiz Paulo Vellozo Lucas Publicado em 4 de novembro de 2025 às 17:33 5 min de leitura
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Luiz Paulo Vellozo Lucas: “A coluna do Castello”


Criada em 1963 no Jornal do Brasil, “A Coluna do Castello”, assinada pelo jornalista Carlos Castello Branco foi publicada diariamente na segunda pagina do jornal até sua morte em maio de 1993. Leitura obrigatória, a Coluna trazia bastidores, análises e antecipações sobre os movimentos do poder em Brasília. Um dos mais respeitados analistas políticos do país, Castellinho, como era chamado carinhosamente, cobriu a política brasileira trinta anos e era consulta obrigatória para quem queria descobrir pistas sobre o futuro.

No processo eleitoral de 1989, na primeira eleição direta para Presidente da República depois do fim do regime militar, a área de planejamento do BNDES promoveu intensa atividade de debate público sobre os desafios do desenvolvimento brasileiro com base nos estudos desenvolvidos na casa com o apoio de grandes pensadores da universidade como Antônio Barros de Castro, Winston Fritsch, Gustavo Franco entre outros. Os quatro candidatos mais pontuados nas pesquisas: Leonel Brizola, Mario Covas, Lula da Silva e Fernando Collor de Mello enviaram suas equipes de programa de governo para conhecer as ideias trabalhadas pelo Banco com destaque para a estratégia da “Integração Competitiva” do Brasil na economia mundial adotada pela instituição como objetivo estratégico principal no lugar da “Substituição de Importações”, ideia força que dominava a politica econômica desde o pós guerra.

No BNDES, entendíamos que a Integração Competitiva era uma estratégia tipo “solução robusta”. Poderia ser adotada em qualquer programa de governo pois não renegava as conquistas do desenvolvimentismo ao mesmo tempo em que incorporava teses liberais por absoluto pragmatismo como a reforma do estado, métodos modernos de gestão, privatização e abertura comercial, sem viés ideológico. Os quatro candidatos colocaram a Integração Competitiva em seus programas e os quatro coordenadores, Cesar Maia, José Serra, Aloysio Mercadante e Zélia Cardoso de Mello fizeram inúmeras reuniões com a equipe no BNDES para esclarecimento e aprofundamento dos temas e das principais escolhas que deveriam ser feitas pelo futuro governo.

Trazer Castellinho para ajudar esta reflexão era nossa maior ambição. Ele não gostava de fazer palestras e indicou Walder de Góes, cientista politico e jornalista de Brasilia, por muitos considerado seu herdeiro intelectual, para falar no seminário de planejamento estratégico do BNDES. Sua palestra foi inteligente, instigante e encorajadora até o momento em que ele se dispôs a fazer uma previsão. Disse Walder de Góes: “Brizola estará no segundo turno. Esta é minha única certeza. A questão central para as elites brasileiras é decidir quem estará lá contra ele.”

Este pensamento era muito comum naquele ano. A certeza que Brizola ganharia eleições diretas embalou toda a resistência existente na elite militar e empresarial que impediu a aprovação das diretas já em 1985. Houve a tentativa de fazer Silvio Santos candidato e também o empresário Antônio Ermírio de Moraes. Essas manobras de ultima hora não deram certo e o debate eleitoral acabou escanteando Ulisses Guimaraes, Aureliano Chaves, Paulo Maluf e todos os outros que foram percebidos como sendo “pouco modernos”. Como se sabe Brizola não foi ao segundo turno contrariando a expectativa geral.

Em 1989, a hiperinflação e o histórico de fracasso dos planos de estabilização dos anos 80 ocupavam todas as atenções. A inflação anual em 1989 foi de 1.782,9 % e em dezembro marcou 50,26% empurrando o debate eleitoral e a preferencia do eleitorado pelo candidato pouco conhecido e percebido como sendo antipolítico, corajoso e moderno, Fernando Collor de Mello.

De muitas maneiras as encruzilhadas existentes nas eleições de 1989 se parecem com as escolhas de 2026. O favoritismo de Lula e a capacidade de cooptação da máquina pública federal consolida a expectativa de vitória do PT, muito parecida com a força do mito sobrevivente do velho getulismo, Leonel Brizola em 1989. O projeto bolsonarista, radicalizado na agenda da extrema direita mundial e na nostalgia do regime militar brasileiro, sem Paulo Guedes e Sergio Moro para ancorar os temas da realidade do país, foi isolado politicamente, derrotado eleitoralmente em 2022 e juridicamente em 2025. A dinâmica da política com suas reviravoltas e surpresas enganou a Coluna do Castello na eleição de Collor e hoje?

O movimento de coesão e solidariedade política com o governador do Rio de Janeiro Claudio Castro, depois da operação de guerra contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha é um fato novo que pauta com sangue a principal prioridade do país e desnuda a incompreensão e inoperância do governo Lula na questão da segurança publica. Como aconteceu com Brizola e a hiperinflação.

Hoje como ontem, não há certezas a cravar. A violência, a exclusão social e as desigualdades acumuladas são expostas territorialmente principalmente nas favelas, com sua infraestrutura urbana tardia e escassa que são submetidas ao controle armado e a extorsão dos grupos narcoterroristas. A conta chega.

O governo Lula e a oposição são desafiados a apresentar uma estratégia verdadeira e crível para virar a pagina da violência e da exclusão. Reformas institucionais, políticas públicas urbanas e liderança nacional trans federativa.

Na falta da Coluna do Castello os vídeos do ex-capitão do BOPE-RJ Rodrigo Pimentel no Instagram são um bom ponto de partida.