Marcus Pestana: “A virtude está no meio”

Eleição se encaminha para o roteiro da polarização

Marcus Pestana: “A virtude está no meio”

O conselho veio de longe, três séculos antes de Cristo. Aristóteles, na Grécia Antiga, alimentou a ideia de que nos extremos haveria uma mistura indesejável de excesso e falta e que o centro estaria associado aos conceitos de moderação, diálogo, equilíbrio e não dogmatismo. Em tempos de Trump e da configuração binária da polarização brasileira, provavelmente Aristóteles seria um “influencer” de baixo impacto e pouca audiência no Instagram, TikTok ou X. Afinal, o que mobiliza as bolhas é exatamente a radicalização extremada das opiniões e a destruição dos adversários políticos, transformados em inimigos de guerra.

No último encontro nacional do PT, o presidente Lula deu a senha: “O Lulinha paz e amor morreu. Agora é guerra”. Vejamos o que dois grandes líderes mundiais disseram sobre o assunto. “A política é quase sempre tão excitante como a guerra, e não menos perigosa. Na guerra, a pessoa só pode morrer uma vez, mas, na política, diversas vezes”, opinou Winston Churchill. Será que Lula está visualizando o risco de uma segunda morte?

Já Mao Tsé-Tung pontuou: “A política é uma guerra sem derramamento de sangue, e a guerra é a política com derramamento de sangue”. A guerra, no Brasil, parece já declarada. Oxalá fiquemos apenas no terreno da política.

Há um equívoco que se repete corriqueiramente. Atores do “meio” defendem que o problema do Brasil é a polarização. Ora, ora, ora, política é, na essência, polarização. É a forma democrática de arbitrar o conflito de visões, valores e projetos presentes na sociedade. É só lembrar. A ruptura do pacto oligárquico por São Paulo levou à Revolução de 1930, liderada por Vargas. Getúlio sofreu oposição ferrenha dos integralistas (direita), do Partido Comunista Brasileiro e da UDN de Carlos Lacerda. JK e Jango não escaparam da hostilidade radical udenista que derivou no golpe de 1964. O embate entre Arena e MDB, no período autoritário, era tudo, menos um mar de rosas. A polarização PSDB e PT chegou ao limite de a esquerda alimentar o “nós contra eles”, a falsa ideia de herança maldita e o “Fora, FHC”. Collor e Dilma foram afastados a partir de campanhas populares. A polarização é inevitável, a questão é sua qualidade.

O que chama atenção, no Brasil de nossos dias, é a baixa ressonância dos partidos e lideranças de “centro”. O lulismo e o bolsonarismo consolidaram núcleos consistentes entre 25% e 35% do eleitorado. Enquanto isso, lideranças de centro-direita e centro-esquerda, mesmo governadores de estados importantes, patinam nas pesquisas e não conseguem mobilizar corações e mentes. Seria o papel que cumprem, na Europa, Emmanuel Macron na França, o SD e a CDU na Alemanha, o PSD e PS portugueses, o PP e o PSOE na Espanha. São portadores da virtude do meio contra os extremos radicalizados.

No Brasil, a derrocada do “meio” tem a ver com o esvaziamento do PSDB, após a Lava Jato, o encolhimento do Cidadania, as ambiguidades de MDB e PSD, a configuração do centrão como polo pragmático, e não ideológico, e a cristalização da polarização entre lulismo e bolsonarismo.

A sete meses das eleições presidenciais, tudo indica que caminhamos solidamente para o roteiro previsível encarnado na polarização entre as candidaturas de Lula e Flávio. Mas alguém já disse: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Será que o destino nos surpreenderá?