Milton Leite se entrega à polícia após ser alvo de operação que investiga vínculos do PCC no transporte de SP

O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil) se entregou à Polícia Civil na tarde desta sexta-feira (18), em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Ele era alvo de um mandado de prisão temporária expedido no âmbito da Operação Vectura Corrupta, que investiga suspeitas de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte público da capital paulista.
Leite chegou à Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) acompanhado de um advogado. A apresentação ocorreu depois de mais de 24 horas em que ele não havia sido localizado pelas autoridades. Na quinta-feira (17), após a deflagração da operação, o ex-vereador havia afirmado que estava viajando e que se apresentaria espontaneamente para prestar esclarecimentos.
A prisão é temporária e tem duração inicial de 30 dias. Após os procedimentos na delegacia, Leite deverá ser encaminhado para uma unidade prisional em Mogi das Cruzes.
A investigação conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo apura a possível atuação de integrantes do PCC em empresas de transporte coletivo, além de suspeitas envolvendo lavagem de dinheiro, corrupção, licitações e financiamento de campanhas políticas.
Segundo documentos reunidos no processo, investigadores apontam Leite como alguém que teria influência sobre decisões relacionadas a empresas do setor. Um dos principais pontos da apuração envolve a Transwolff, companhia que já havia sido alvo da Operação Fim da Linha, em 2024.
Relatórios policiais citados na investigação mencionam depoimentos de policiais militares que apontariam Leite como suposto “dono de fato” da Transwolff. A empresa, por sua vez, afirma que o ex-vereador nunca teve participação societária, não integrou a gestão e jamais deu ordens na companhia.
A investigação também reúne diálogos nos quais o nome de Leite aparece em discussões sobre decisões envolvendo empresas de ônibus. Em um dos episódios, investigadores afirmam que uma eventual mudança envolvendo a operação de empresas de transporte deveria ser comunicada ao ex-vereador.
A defesa de Leite nega as acusações e afirma que ele não possui relação com o PCC nem é proprietário da Transwolff. O próprio ex-parlamentar também rejeita as suspeitas levantadas pela investigação.
Dinheiro encontrado durante buscas
Antes da apresentação de Leite, policiais civis e integrantes do Ministério Público fizeram buscas em um imóvel de Sorocaba onde havia suspeita de que o ex-vereador pudesse estar. Ele não foi localizado.
No endereço, ligado a um ex-assessor de Leite, foram encontrados R$ 280 mil em espécie e US$ 89 mil, valor equivalente a aproximadamente R$ 458 mil pela cotação atual. O dinheiro e outros materiais foram apreendidos para análise.
A polícia também encontrou uma passagem considerada secreta no imóvel durante as diligências realizadas nesta sexta-feira. Segundo as autoridades, a possibilidade de informações sobre as buscas terem vazado também deverá ser investigada.
Investigação começou em 2024
A Operação Vectura Corrupta é resultado de uma investigação iniciada em 2024. Naquele ano, a Operação Decúrio levou à apreensão de drogas e à análise de dados obtidos em celulares ligados a integrantes do PCC.
As informações obtidas durante aquela investigação permitiram aos investigadores identificar uma estrutura financeira e operacional atribuída à facção. O trabalho posteriormente avançou para possíveis conexões entre o crime organizado, empresas de transporte, agentes públicos e políticos.
Na nova etapa, a Polícia Civil e o Ministério Público passaram a investigar suspeitas de que empresas do transporte coletivo poderiam ter sido utilizadas para movimentação de recursos ilícitos e para ampliar a influência do crime organizado sobre estruturas públicas.
A operação também atingiu outros políticos, empresários e ex-integrantes da administração pública. Ao todo, foram expedidos mandados de prisão e de busca e apreensão em diferentes cidades paulistas.
Com a apresentação de Milton Leite, a Polícia Civil deverá agora avançar nos depoimentos e na análise dos materiais apreendidos para esclarecer o papel atribuído a cada investigado. As suspeitas ainda são objeto de investigação e deverão ser submetidas à análise judicial.