
O Plano Clima apresentado pelo governo federal estabelece que o Brasil só conseguirá cumprir a meta assumida no Acordo de Paris se promover a maior redução de desmatamento já registrada no país. O compromisso prevê cortar de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, em comparação com os níveis de 2005.
O sumário executivo do plano indica que a principal aposta para atingir o objetivo está na mudança do uso da terra, especialmente em áreas públicas e imóveis rurais privados. Enquanto isso, setores como agropecuária, energia e indústria poderão manter ou até ampliar suas emissões nos próximos anos.
Na agropecuária, está prevista a possibilidade de aumento de até 2% nas emissões até 2035 em relação a 2022. O setor energético poderá elevar a poluição em até 44% no mesmo período, dependendo do cenário adotado. Já a indústria poderá registrar alta entre 13% e 34%.
Diante desses números, o cumprimento da meta climática dependerá de uma redução superior a 100% nas emissões ligadas à mudança do uso da terra, o que significa que as florestas brasileiras teriam de absorver mais carbono do que emitem, atingindo níveis negativos nunca antes registrados.
O plano também estabelece metas como a redução de 75% do desmatamento ilegal até 2035, a ampliação de áreas de conservação e a delimitação de terras indígenas. No entanto, as metas setoriais detalhadas ainda não foram divulgadas integralmente.
O Ministério do Meio Ambiente afirma que o documento foi elaborado para permitir crescimento econômico com redução de emissões, projetando expansão média do PIB de 2,6% ao ano no período. Especialistas ouvidos por diferentes organizações apontam que o plano é desafiador e depende fortemente da efetividade no combate ao desmatamento.
A elaboração do documento enfrentou impasses internos no governo, especialmente quanto à inclusão das emissões por desmatamento nas metas da agropecuária. A solução adotada foi separar as metas de uso da terra das metas específicas do setor agrícola.
Embora o governo destaque o compromisso ambiental assumido internacionalmente, os dados do próprio Plano Clima mostram que o sucesso da meta dependerá quase exclusivamente de um corte histórico no desmatamento, em um cenário em que outros setores mantêm espaço para ampliar emissões.
O plano foi concebido como política de Estado, mas não possui força de lei e poderá ser revisto por futuras administrações. O governo informou que pretende realizar um primeiro balanço da implementação ainda em 2026.