PF revela que lobista amiga de Lulinha relatava viagens em voos da FAB e acesso ao Planalto

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal e reveladas pelo Metrópoles colocam novamente no centro das investigações sobre a atuação da lobista Roberta Luchsinger sua relação com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Segundo os registros, ela relatava a terceiros viagens em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB), deslocamentos acompanhada do filho do presidente e acesso a dependências do Palácio do Planalto.
Em um áudio enviado em novembro de 2023 a uma assessora do governo da Bahia, Luchsinger afirmou que viajaria pela FAB acompanhada do “filho do presidente”. Na mensagem, explicou que não teria controle sobre os horários de embarque porque o grupo utilizaria uma base aérea, em vez de um voo comercial.
“Então, a gente vai estar de FAB, e aí eu não consigo administrar esses horários de voo”, afirmou a lobista na gravação divulgada pela reportagem.
Em outra conversa, de março de 2023, Luchsinger escreveu à própria mãe que havia ido a Brasília no “aero Lula”. Questionada se seria o avião do presidente, respondeu: “Avião do Lula”. Os registros fazem parte do material obtido pela PF no curso das investigações que envolvem a empresária.
A relação com Lulinha já havia aparecido em outras mensagens analisadas pelos investigadores. Em conversas divulgadas anteriormente, Luchsinger chegou a se referir ao filho do presidente como seu “sócio” ao falar com terceiros, embora não exista registro formal de uma sociedade empresarial entre os dois. Em depoimento à PF, entretanto, ela descreveu a relação como de amizade e negou ter feito repasses financeiros a Lulinha.
Mensagem indica acesso ao Palácio do Planalto
Outro registro chama atenção pela referência direta ao Palácio do Planalto. Em 11 de junho de 2025, Luchsinger enviou uma mensagem a uma advogada dizendo que estava dentro do prédio e que não poderia escrever muito porque se encontrava “na sala do pai do Fábio”, expressão que, segundo a reportagem, ela utilizava para se referir a Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em outra conversa, a lobista também relatou ter estado com Lula e Lulinha. Os registros fazem parte do conjunto de elementos que sustentam as investigações sobre possível tráfico de influência envolvendo o filho do presidente.
A Polícia Federal investiga se a proximidade de Luchsinger com Lulinha foi utilizada para facilitar contatos e negócios junto ao governo federal. As apurações tiveram origem em informações encontradas durante a Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Relação com o “Careca do INSS”
A investigação também identificou uma relação entre a consultoria de Luchsinger e o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Segundo informações reunidas pela PF, a empresária recebeu R$ 1,5 milhão em pagamentos relacionados a serviços prestados por sua empresa.
Os investigadores passaram a analisar se parte dos recursos poderia ter como destino Lulinha. Em mensagens obtidas pela PF, há referências a pagamentos e benefícios envolvendo o filho do presidente, embora as circunstâncias e a eventual destinação dos valores sejam objeto das investigações.
Luchsinger, por sua vez, afirmou em depoimento à Polícia Federal que apresentou Antunes a Lulinha em um contexto social e negou que o filho do presidente tenha prestado serviços relacionados aos negócios investigados ou recebido valores dela.
Lulinha é alvo de investigações
Fábio Luís Lula da Silva passou a ser investigado em três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal. As apurações analisam suspeitas relacionadas a tráfico de influência e possíveis relações com negócios envolvendo empresas que buscavam contratos ou interlocução com órgãos do governo federal.
As mensagens envolvendo Luchsinger acrescentam novos elementos à apuração ao registrar relatos sobre deslocamentos em aeronaves da FAB e presença no Palácio do Planalto. A existência dessas mensagens, porém, não significa, por si só, que tenha havido irregularidade nos voos ou no acesso às dependências oficiais. As circunstâncias e eventual finalidade dessas situações são justamente parte do que está sendo investigado.
O caso também ganhou repercussão depois de Lula afirmar publicamente que não protegeria o filho caso fossem comprovadas irregularidades. Em setembro, o presidente declarou que, se Lulinha tivesse cometido algum erro, deveria responder por ele, enquanto defendia o direito de o filho apresentar sua defesa.
As investigações seguem em andamento, e as mensagens agora analisadas pela Polícia Federal deverão ser confrontadas com outros elementos reunidos nos inquéritos para esclarecer a extensão da relação entre Luchsinger, Lulinha e pessoas investigadas por suspeitas de tráfico de influência e corrupção.