
Raul Christiano Sanchez
Muito se fala sobre a polarização política no Brasil, mas é necessário compreender melhor o que realmente está em disputa. O confronto dominante no cenário nacional não ocorre entre projetos consistentes de esquerda e direita. Na prática, a polarização brasileira tornou-se um embate personalista entre Lula e Bolsonaro, marcado muito mais pela rejeição ao adversário do que pela discussão de propostas para o futuro do país.
Conforme pesquisa no ano passado, pelo ConnectLab, Centro de Estudos da Escola de Economia da FGV em São Paulo, lulistas e bolsonaristas estimam com erro as suas vantagens, respectivamente acreditam que representam 41% e 46% da população, respectivamente, quando na real são 16 e 13%.
O debate nacional empobreceu. Em vez de confrontar ideias, assistimos diariamente a uma troca de denúncias, acusações, críticas e narrativas cujo principal objetivo é derrotar o outro lado. Se esse quadro permanecer até as eleições, dificilmente haverá espaço para uma alternativa competitiva.
Os demais candidatos tendem a ser pressionados a se alinhar a um dos polos, tornando-se apenas forças auxiliares de uma disputa previamente delimitada. Quando isso acontece, a polarização deixa de ser um fenômeno circunstancial e passa a se reproduzir indefinidamente.
Existe uma identidade política em cada um desses campos. Um deles apresenta um discurso mais progressista; o outro, uma visão conservadora. Mas essa divisão não explica toda a complexidade da sociedade brasileira. A extrema esquerda e a própria esquerda organizada representam parcelas minoritárias da população. A maioria dos brasileiros não se encaixa perfeitamente nessas classificações ideológicas.
Chama a atenção o número crescente de jovens que se definem como de direita ou até de extrema direita, muitas vezes mais por oposição a Lula do que por adesão profunda a um conjunto estruturado de ideias conservadoras. Da mesma forma, muitos eleitores que apoiam Lula não se identificam necessariamente com tradições clássicas da esquerda.
Durante a luta pela redemocratização, o cenário era diferente. Trabalhadores, estudantes, intelectuais, profissionais liberais e diversos movimentos sociais convergiam na defesa das liberdades democráticas, das eleições diretas, da anistia e de uma nova Constituição. Havia divergências, mas existia um objetivo comum: superar as restrições políticas impostas pelo regime militar.
Naquele contexto, convencionou-se associar posições progressistas à esquerda e posições de apoio ao regime ao conservadorismo. Com o passar das décadas, essas referências históricas foram simplificadas e muitas vezes distorcidas. O resultado é que categorias construídas em outros períodos e influenciadas por experiências internacionais são utilizadas para explicar uma realidade muito mais complexa.
O Brasil precisa voltar a discutir projetos de país. Sem isso, continuaremos presos a uma disputa de lideranças, enquanto questões fundamentais para o desenvolvimento nacional permanecem em segundo plano. Democracias amadurecem quando ideias competem. Quando apenas personalidades se enfrentam, todos perdem.
(*) Raul Christiano Sanchez é jornalista, escritor, ex-secretário executivo de Estado da Justiça e Cidadania, membro da Academia Santista de Letras.