
Se a resposta depender das calçadas esburacadas, das filas na saúde, da falta de cuidadores, do transporte público inadequado ou da invisibilidade social enfrentada por milhares de idosos, infelizmente a resposta é não.
O envelhecimento da população goiana já deixou de ser uma projeção para se tornar uma realidade. Dados mais recentes do IBGE mostram que 14,4% da população de Goiás tem 60 anos ou mais, ultrapassando um milhão de pessoas. Em pouco mais de uma década, a participação dos idosos saltou de 8,8% para 14,4%, e as projeções demográficas indicam que esse percentual continuará crescendo nas próximas décadas, impulsionado pelo aumento da expectativa de vida e pela redução da natalidade.
O problema é que nossas cidades continuam sendo planejadas para quem tem vinte anos, não para quem tem mais de 60.
Segundo o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), 42,7% dos idosos têm medo de cair por causa das condições das calçadas e ruas. Um em cada cinco sofreu alguma queda no último ano. Isso significa que milhares deixam de caminhar, visitar familiares, frequentar igrejas, praças ou centros comunitários simplesmente porque sair de casa se tornou um risco.
Quando um idoso perde o direito de circular pela cidade, ele perde muito mais que mobilidade. Perde independência, convivência e qualidade de vida.
Na saúde, os números também são preocupantes. Mais de um terço dos idosos apresenta hipertensão, quase um em cada cinco convive com sintomas depressivos e cerca de 20% têm dificuldade para realizar atividades simples, como tomar banho, vestir-se ou levantar-se da cama. Ainda assim, apenas 37,9% daqueles que precisam recebem algum tipo de ajuda, e somente 5,8% dos cuidadores receberam treinamento adequado.
Quem cuidará dos idosos quando eles precisarem de cuidados permanentes?
Essa pergunta ainda não foi respondida por grande parte das políticas públicas.
Em Goiás, cerca de dois terços da população idosa depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde. A Estratégia Saúde da Família será cada vez mais importante, mas ela, sozinha, não resolverá um problema que envolve habitação, mobilidade, assistência social, segurança, acessibilidade e inclusão.
Há outro dado que desmonta um velho preconceito. Mais de 80% dos idosos goianos utilizam a internet, e centenas de milhares continuam economicamente ativos, trabalhando para complementar a renda ou porque desejam permanecer produtivos. Eles não querem privilégio. Querem oportunidade, respeito e autonomia.
Mesmo assim, continuamos tratando o envelhecimento como se fosse um problema individual das famílias.
É comum discutir creches, escolas e geração de empregos — temas fundamentais. Mas quase nunca debatemos centros-dia para idosos, formação de cuidadores, moradias acessíveis, transporte adaptado, combate à solidão, prevenção de quedas ou programas de envelhecimento ativo.
Talvez porque ainda existe a falsa ideia de que envelhecer acontece apenas com os outros.
Mas a verdade é que o maior projeto social de qualquer governo deveria ser preparar a sociedade para viver mais.
Cada calçada acessível evita uma fratura. Cada cuidador capacitado evita uma internação. Cada unidade de saúde estruturada previne doenças que custam milhões aos cofres públicos. Cada espaço de convivência combate a depressão, o isolamento e devolve dignidade.
Investir na população idosa não é um gasto. É inteligência administrativa, responsabilidade social e planejamento para o futuro.
Porque uma sociedade que ignora aqueles que construíram sua história acaba revelando qual será o destino de todos nós.
Rebeca Romero é jornalista, luta pelas causas sociais e pré-candidata a deputada federal por Goiás.