Romário Faria: “A revolução de Ivy na minha vida”

Cabe ao poder público garantir saúde, educação, trabalho, respeito e dignidade aos 14,4 milhões de brasileiros com deficiência

Romário Faria: “A revolução de Ivy na minha vida”

Como jogador de futebol, vivi momentos inesquecíveis dentro de campo, conquistas que marcaram minha trajetória e a história do esporte brasileiro. Mas nenhum deles se compara ao dia em que nasceu minha filha Ivy. Aquele momento mudou tudo. Eu ainda não fazia ideia da revolução que minha princesa, com aquele sorriso enorme e um cromossomo a mais, provocaria na minha forma de enxergar a vida, as pessoas e a própria sociedade.

Ivy nasceu com síndrome de Down e, desde muito cedo, mostrou que essa condição nunca seria um obstáculo. O verdadeiro desafio sempre esteve nas barreiras e no preconceito que a sociedade ainda impõe. No início, como acontece com muitas famílias, vieram as dúvidas e os medos. Eu queria entender o que o futuro reservava para minha filha. Bastou acompanhar seus primeiros passos para perceber que ela não precisava que ninguém sentisse pena. Precisava que o mundo acreditasse nela. Ao longo dos anos, vi minha princesa crescer, aprender e conquistar espaços que muitos achavam que seria impossível. Nesta semana comemoramos o aniversário de 21 anos da Ivy, e só peço que Papai do Céu continue abençoando o seu caminho! Hoje ela cursa o segundo ano da faculdade de artes cênicas e será atriz. Quem me acompanha sabe que Ivy também é um sucesso nas redes sociais. Em pouco tempo, conquistou milhares de pessoas com o seu jeito alegre e espontâneo de mostrar o seu dia a dia, reforçando que a síndrome de Down não limita e não define ninguém. Tenho muito orgulho da minha caçula, da sua força e determinação para transformar seus sonhos em realidade.

Foi por causa dela que passei a olhar com mais atenção para a realidade das pessoas com deficiência no Brasil e decidi transformar essa experiência pessoal em luta pública. Na política, encontrei um caminho para ampliar essa defesa. Tive a honra de ser o relator da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), o Estatuto da Pessoa com Deficiência, que assegurou o direito à dignidade, à autonomia e à igualdade de oportunidades. Mesmo após dez anos da sua aprovação, temos muito a avançar.

Hoje, 21 de março, celebramos o Dia Internacional da Síndrome de Down. Mais que uma data simbólica, é um convite à ação. Ainda existem crianças que enfrentam dificuldades para ser incluídas na escola, jovens que lutam por oportunidades e famílias que convivem com a falta de informação e de acesso a tratamentos. Cabe ao poder público garantir saúde, educação, trabalho, respeito e dignidade aos 14,4 milhões de brasileiros com deficiência. Ivy continua sendo minha maior inspiração. Todos os dias ela me lembra que a síndrome de Down não limita sonhos nem diminui o valor de ninguém. O que realmente limita são o preconceito e a ignorância.

Assim como em 1994, quando vestia a camisa da Seleção e assumi a responsabilidade de fazer o Brasil conquistar a Copa do Mundo, o nascimento da minha filha me levou a assumir um novo compromisso. Desde então, tenho feito minha parte para ampliar direitos das pessoas com deficiência. Essa causa move a minha vida como pai e orienta minha atuação parlamentar. Além de ter sido relator da LBI, apresentei projetos para ampliar a inclusão no mercado de trabalho, fortalecer a educação inclusiva, garantir acessibilidade em serviços públicos e assegurar que pessoas com deficiência tenham direitos plenamente respeitados.

Desta vez, não posso dizer que é só minha a responsabilidade de vencer a luta pela inclusão. Preciso que o Brasil inteiro abrace essa causa, para que possamos construir um país mais humano, mais justo e verdadeiramente inclusivo.

*Romário Faria é senador da República