
A queda de Nicolás Maduro não significou, necessariamente, o fim do chavismo no poder. Pelo contrário. A estratégia do presidente Donald Trump aponta para um arranjo político pragmático na Venezuela, no qual aliados do antigo regime podem ser mantidos no comando desde que aceitem uma condição central imposta por Washington: o controle efetivo do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos.
A rápida transição de poder após a retirada de Maduro, com a ascensão de sua vice, Delcy Rodríguez, indicou que havia um caminho previamente mapeado para a continuidade institucional do regime, ainda que sem qualquer ruptura democrática. A prioridade da Casa Branca não parece ser a reconstrução da soberania popular venezuelana, mas a estabilização do país sob termos estratégicos favoráveis aos interesses americanos.
Nos bastidores, a avaliação em Washington é de que negociar com a elite burocrata-militar chavista é mais funcional do que apostar em uma oposição fragmentada e enfraquecida após anos de repressão e eleições fraudadas. A ideia seria substituir o chavismo ideológico por um “chavismo funcional”, disposto a cooperar com os EUA em troca da preservação de poder interno.
O desenho desse acordo passa diretamente pelo setor energético. O petróleo da Venezuela, uma das maiores reservas do mundo, torna-se peça-chave da nova equação geopolítica. Ao garantir influência sobre a produção e a circulação do óleo venezuelano, os Estados Unidos buscam não apenas segurança energética, mas também bloquear o avanço da China na região, considerada estratégica no tabuleiro global.
Nesse contexto, a democracia venezuelana permanece fora do centro das negociações. Não há, até o momento, sinais concretos de compromisso com eleições livres, pluralismo político ou reconstrução institucional. O que se desenha é um acordo de poder, no qual a permanência do chavismo é tolerada desde que alinhada aos interesses externos.
O episódio expõe uma contradição central da política internacional contemporânea: discursos sobre liberdade e democracia cedem espaço a pactos pragmáticos quando recursos estratégicos entram em jogo. Para a população venezuelana, o risco é trocar um isolamento autoritário por uma tutela estrangeira, sem que isso represente alívio imediato para a crise social e humanitária que marca o país há anos.