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STF manda PF investigar suposta intervenção de grupo americano na eleição brasileira

Por Brasil no Centro Publicado em 27 de outubro de 2026 às 14:32 8 min de leitura
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STF manda PF investigar suposta intervenção de grupo americano na eleição brasileira

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (27) que a Polícia Federal abra um inquérito para investigar suspeitas de interferência estrangeira nas eleições presidenciais brasileiras de 2026. A decisão envolve possíveis operações de financiamento político por uma organização norte-americana, uso de plataformas digitais para favorecer candidaturas e eventuais interesses econômicos na exploração de minerais estratégicos do Brasil.

Entre os principais alvos da apuração está a Rockbridge Network, organização conservadora dos Estados Unidos ligada a financiadores do Partido Republicano, do presidente Donald Trump. A investigação deverá esclarecer se representantes do grupo participaram de negociações destinadas a direcionar recursos ou outras vantagens à campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado no segundo turno pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A determinação foi tomada após informações encaminhadas ao Supremo pelo PT e pelo partido Missão, legenda do ex-candidato presidencial Renan Santos (Missão). As representações apontam suspeitas de financiamento eleitoral estrangeiro, publicidade política remunerada por perfis internacionais e possíveis distorções deliberadas na distribuição de conteúdos pelas redes sociais.

A abertura do inquérito não significa que as acusações tenham sido comprovadas. A Polícia Federal deverá examinar a existência de irregularidades, identificar eventuais responsáveis e verificar se os fatos relatados configuram infrações à legislação brasileira.

A Rockbridge Network reúne empresários, investidores e doadores ligados ao conservadorismo norte-americano, com atuação especialmente próxima a setores de tecnologia e grupos políticos republicanos.

A organização ganhou destaque na campanha brasileira após Renan Santos levantar suspeitas de que recursos provenientes dos Estados Unidos poderiam estar sendo mobilizados para favorecer Flávio Bolsonaro.

Na decisão, Dino menciona possíveis tratativas envolvendo os empresários brasileiros Tallis Gomes, fundador da G4 Educação e da Easy Taxi, e Pedro Sang, apontado nas reportagens como representante da Rockbridge no Brasil.

A Polícia Federal deverá investigar a natureza dos contatos entre os empresários e a organização norte-americana, além de verificar se houve alguma relação entre essas negociações e o financiamento de atividades eleitorais.

A legislação brasileira proíbe o recebimento de recursos de origem estrangeira por partidos e campanhas eleitorais. A vedação também alcança mecanismos indiretos que possam transformar dinheiro ou serviços financiados no exterior em vantagens políticas irregulares.

Por isso, o inquérito deverá examinar não apenas eventuais transferências financeiras, mas também a contratação de serviços e outras formas de apoio econômico que possam ter beneficiado uma candidatura.

Até o momento, não foi demonstrado que a Rockbridge tenha efetivamente financiado a campanha de Flávio Bolsonaro.

Outra frente da investigação envolve a divulgação de conteúdos políticos por perfis estrangeiros nas plataformas digitais.

Segundo as informações apresentadas ao Supremo, contas sediadas fora do Brasil teriam realizado publicações remuneradas, em português, direcionadas ao eleitorado brasileiro e relacionadas às perspectivas de vitória de Flávio Bolsonaro.

Parte dessas mensagens fazia referência à Polymarket, plataforma internacional de mercados de previsão que permite negociar contratos vinculados a resultados de acontecimentos, incluindo eleições.

A representação do partido Missão questiona quem financiou essas publicações, qual era sua finalidade e se pessoas ou empresas brasileiras participaram conscientemente das operações.

A plataforma Polymarket estava sujeita a restrições de funcionamento no Brasil desde 2024.

A Polícia Federal deverá identificar os responsáveis pela contratação dos anúncios e rastrear a origem dos recursos empregados. Também investigará se a publicidade representou uma forma indireta de financiamento eleitoral.

A existência de publicações estrangeiras sobre uma eleição brasileira, isoladamente, não caracteriza irregularidade. A investigação buscará determinar se houve contratação ou financiamento proibido pela legislação e eventual coordenação com atores políticos nacionais.

O ministro também determinou a apuração de suspeitas envolvendo a atuação das plataformas Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, e X, rede social controlada por Elon Musk.

As denúncias mencionam possíveis diferenças no tratamento dado aos conteúdos das campanhas presidenciais, restrições temporárias a publicações de Lula e alegações de maior distribuição de materiais favoráveis a Flávio Bolsonaro.

Entre os fatos levados ao Supremo estão problemas técnicos registrados durante a campanha, questionamentos sobre ferramentas de inteligência artificial e reclamações relativas ao alcance de publicações políticas.

Dino considerou necessário investigar se eventuais diferenças de distribuição ocorreram por falhas operacionais, funcionamento regular dos sistemas ou intervenções intencionais destinadas a favorecer ou prejudicar candidatos.

A distinção é relevante porque o desempenho de uma publicação nas redes sociais depende de diferentes fatores, incluindo compartilhamentos, interações dos usuários e distribuição remunerada.

A apuração deverá buscar elementos técnicos capazes de demonstrar se houve manipulação deliberada dos algoritmos.

As suspeitas também foram discutidas anteriormente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que adotou providências para examinar reclamações sobre possíveis diferenças de tratamento entre as campanhas durante o segundo turno.

A Meta nega ter interferido nas eleições brasileiras.

Em comunicado divulgado em 16 de outubro, a empresa afirmou que não favorece candidatos em razão de suas posições políticas e que as alegações de manipulação eleitoral são infundadas.

A companhia reconheceu a ocorrência de problemas técnicos que afetaram ferramentas de publicidade e contagem de visualizações, mas sustentou que os incidentes tiveram explicações operacionais e não foram dirigidos especificamente contra a campanha de Lula.

Segundo a Meta, uma conta de anúncios do presidente foi desativada equivocadamente por pouco mais de uma hora, enquanto outra falha na contabilização de visualizações atingiu usuários de mais de cem países.

A empresa também informou ter apresentado ao TSE documentos técnicos para contestar as acusações de favorecimento eleitoral.

O posicionamento da companhia deverá ser considerado no contexto das diligências, sem afastar a possibilidade de investigação de fatos específicos.

Uma das linhas mais sensíveis da investigação envolve possíveis interesses estrangeiros nas reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos.

Esses recursos são utilizados em setores estratégicos, como produção de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, sistemas de defesa e tecnologias de energia.

Segundo a decisão, é necessário esclarecer se eventuais negociações para apoiar candidaturas estavam relacionadas a interesses empresariais na exploração dessas reservas.

A Polícia Federal deverá verificar se houve propostas, quem participou das conversas e se alguma vantagem econômica foi oferecida como contrapartida por apoio político ou eleitoral.

Não há, até o momento, comprovação de que recursos minerais brasileiros tenham sido prometidos, negociados ou oferecidos em troca de financiamento de campanha.

O ministro destacou que as riquezas minerais pertencem à União e que sua exploração está submetida às exigências legais de autorização ou concessão.

A investigação deverá examinar se existem elementos concretos que relacionem os interesses econômicos mencionados nas denúncias às atividades eleitorais questionadas.

A determinação de Dino também considera alertas anteriores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Em relatório sobre os desafios de inteligência para 2026, a agência identificou riscos de interferência de atores estrangeiros, estatais ou privados, no processo político brasileiro.

O documento mencionou ameaças relacionadas à desinformação, ao financiamento oculto e à utilização de ferramentas digitais capazes de influenciar a circulação de informações.

O ministro avaliou que as denúncias apresentadas ao Supremo justificam a apuração por meio de um procedimento próprio da Polícia Federal, sob supervisão judicial.

As informações chegaram à Corte durante a tramitação de uma ação que discute soberania nacional e os efeitos de determinações estrangeiras no território brasileiro.

Dino entendeu que as suspeitas eleitorais possuem natureza específica e devem ser investigadas separadamente, sem que a ação original seja utilizada para resolver diretamente todas as acusações.

A decisão foi tomada dois dias depois da reeleição de Lula, confirmada pelo TSE no domingo (25).

O presidente derrotou Flávio Bolsonaro no segundo turno, encerrando uma disputa marcada por questionamentos sobre a circulação de conteúdos eleitorais e o funcionamento das plataformas digitais.

A investigação determinada nesta terça-feira não altera o resultado da votação nem representa uma decisão sobre a validade da eleição presidencial.

Seu objetivo é esclarecer se agentes estrangeiros atuaram de maneira irregular no processo eleitoral, especialmente por meio de financiamento político, publicidade digital ou interferências tecnológicas.

A Polícia Federal deverá reunir documentos, examinar movimentações financeiras, identificar participantes das operações mencionadas e avaliar os elementos apresentados nas representações.

As conclusões dependerão das diligências realizadas e das provas eventualmente obtidas.

Até lá, as acusações envolvendo a Rockbridge Network, os empresários citados, a campanha de Flávio Bolsonaro e as plataformas digitais permanecem sob investigação, sem conclusão judicial sobre a ocorrência de interferência estrangeira na eleição brasileira.