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Apoio de Milei à saída de Flávio Bolsonaro para os EUA amplia crise diplomática com o Brasil

Imprensa argentina aponta participação de assessor presidencial na operação que levou senador a Miami. Governo Lula vê agravamento das relações com Buenos Aires.

Por Brasil no Centro Publicado em 29 de outubro de 2026 às 13:50 9 min de leitura
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Apoio de Milei à saída de Flávio Bolsonaro para os EUA amplia crise diplomática com o Brasil

A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, após sua derrota na eleição presidencial, abriu uma nova crise diplomática entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Javier Milei, presidente da Argentina. Informações divulgadas pela imprensa argentina apontam que integrantes do governo de Buenos Aires teriam participado da operação que permitiu ao parlamentar brasileiro atravessar a fronteira e embarcar em um avião particular com destino aos Estados Unidos.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada nesta quinta-feira (29), auxiliares de Lula consideram que a possível participação de autoridades argentinas agravou uma relação bilateral já marcada por divergências políticas, ataques públicos e dificuldades de comunicação diplomática.

O episódio ocorreu depois que Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno de domingo (25), foi intimado a entregar seus passaportes e ficou proibido de deixar o território nacional por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Apesar da restrição, o senador cruzou a fronteira na noite de terça-feira (27), acompanhado da esposa e das duas filhas, e chegou a Miami na manhã de quarta-feira (28). A viagem foi confirmada por autoridades migratórias argentinas e por registros de seu desembarque nos Estados Unidos.

A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que Flávio e seus familiares ingressaram no país às 22h50 de terça-feira, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones.

De acordo com o comunicado, os quatro apresentaram documentos de viagem válidos e não possuíam impedimentos registrados pelas autoridades argentinas para entrar no país.

O órgão acrescentou que a família embarcou em um voo privado operado pela Baires Fly S.A., cujo plano de viagem indicava Guayaquil, no Equador, como destino inicial. A aeronave posteriormente seguiu para Miami, onde o senador desembarcou.

A confirmação da passagem pela Argentina esclareceu parte das informações contraditórias divulgadas ao longo da terça-feira, quando aliados do parlamentar e autoridades dos dois países apresentaram versões diferentes sobre seu paradeiro.

O principal questionamento diplomático, entretanto, está relacionado à possível participação de integrantes do governo argentino na organização da viagem.

Reportagem do jornal argentino Clarín afirmou que Santiago Caputo, um dos assessores mais influentes de Javier Milei, esteve em Puerto Iguazú durante a operação.

Segundo a publicação, Caputo acompanhou os preparativos para o embarque e teria participado da coordenação logística destinada a garantir que o senador e seus familiares chegassem à aeronave sem exposição pública.

O jornal também relatou que empresas ligadas à Embaixada dos Estados Unidos teriam participado da contratação do voo privado. Essa informação foi atribuída a fontes ouvidas pelo periódico e não equivale a uma confirmação oficial de participação do governo norte-americano na operação.

A presença de Caputo na região foi noticiada por diferentes veículos de comunicação, mas o alcance exato de sua atuação ainda depende de esclarecimentos.

A suspeita de envolvimento de autoridades argentinas ganhou maior repercussão depois que Flávio agradeceu publicamente ao presidente Javier Milei.

Em manifestação divulgada na quarta-feira (28), já nos Estados Unidos, o senador expressou reconhecimento ao argentino por sua atuação diante dos acontecimentos que antecederam sua viagem.

A declaração foi interpretada por interlocutores do governo brasileiro como mais um indício de proximidade entre a administração Milei e a operação de saída do parlamentar.

A participação direta do presidente argentino no planejamento do deslocamento, porém, não foi demonstrada pelos documentos migratórios divulgados até o momento.

O que está oficialmente confirmado é que Flávio entrou na Argentina, embarcou em um avião privado e seguiu para os Estados Unidos, apesar da ordem judicial brasileira que restringia sua saída do país.

O possível auxílio de autoridades estrangeiras permanece baseado nas informações publicadas pela imprensa argentina e nas declarações dos envolvidos.

A crise ocorre em um contexto de deterioração das relações diplomáticas entre Brasília e Buenos Aires.

Durante a campanha presidencial brasileira, Milei declarou apoio a Flávio Bolsonaro e participou de atividades relacionadas à sua candidatura.

O presidente argentino também dirigiu ataques públicos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, utilizando expressões ofensivas que provocaram reações do governo brasileiro.

O Ministério das Relações Exteriores classificou as manifestações de Milei como uma tentativa de interferência no processo democrático nacional.

Em agosto, diante da sucessão de ataques, o governo brasileiro orientou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, a retornar a Buenos Aires.

Ao mesmo tempo, o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, permaneceu no Brasil.

As medidas reduziram a interlocução diplomática entre os dois governos e aprofundaram o distanciamento político que já vinha sendo observado desde a aproximação de Milei com a família Bolsonaro.

As divergências também envolveram integrantes do primeiro escalão do governo brasileiro.

Durante a troca de declarações públicas, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, criticou o presidente argentino. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), também fez manifestações contundentes contra Milei e sua proximidade com o presidente norte-americano Donald Trump.

A sucessão de ataques contribuiu para a deterioração do ambiente político entre os dois países, apesar da importância das relações comerciais e da participação conjunta no Mercosul.

Brasil e Argentina mantêm uma relação econômica estratégica, especialmente nos setores industrial, automotivo e de comércio regional. A continuidade dessas atividades depende de canais institucionais que ultrapassam as diferenças entre os governantes.

Na avaliação de integrantes do governo Lula ouvidos pela Folha, a situação envolvendo Flávio Bolsonaro tornou ainda mais difícil uma eventual reaproximação diplomática.

Havia a expectativa de que o encerramento da eleição presidencial brasileira permitisse reduzir as tensões. Entretanto, a participação atribuída a representantes argentinos na viagem do senador passou a ser considerada um novo obstáculo.

Auxiliares do presidente brasileiro avaliam que a recomposição das relações poderá permanecer limitada pelo menos até as eleições argentinas previstas para outubro de 2027.

Nesse cenário, o retorno dos embaixadores às respectivas capitais é visto como uma possibilidade distante no curto prazo.

Outro episódio que ampliou o desgaste ocorreu após a confirmação da reeleição de Lula.

Enquanto presidentes de diferentes orientações políticas na América Latina reconheceram o resultado anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral, o governo Milei evitou divulgar uma mensagem de congratulação ao presidente brasileiro.

Na terça-feira (27), o porta-voz presidencial argentino, Adrián Ravier, afirmou que Buenos Aires não pretendia se manifestar sobre o resultado eleitoral.

Ele justificou a posição alegando que Lula também não havia cumprimentado Milei quando o argentino venceu a eleição presidencial de 2023.

A justificativa não corresponde integralmente aos registros públicos da época. Após a vitória de Milei, Lula divulgou uma manifestação reconhecendo o processo democrático argentino e cumprimentando as instituições e a população do país pela realização da eleição, embora não tenha mencionado nominalmente o vencedor.

A diferença entre as manifestações passou a integrar o novo capítulo de divergências entre os governos.

A situação de Flávio Bolsonaro também passou a ter repercussões na Argentina.

A deputada argentina Marcela Pagano solicitou uma investigação sobre a passagem do senador pelo país e a possibilidade de utilização de recursos ou estruturas públicas para auxiliar sua saída.

A iniciativa busca esclarecer se autoridades participaram da operação e em quais condições ocorreu o deslocamento até a aeronave privada.

O avião utilizado por Flávio pertence à Baires Fly, empresa mencionada em investigações argentinas sobre suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo contratos públicos.

A existência dessa investigação sobre a companhia aérea não comprova, por si só, que o voo utilizado pelo senador tenha sido financiado com recursos ilícitos.

No Brasil, Flávio Bolsonaro continua sendo investigado em procedimentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Entre eles estão apurações relacionadas a suspeitas de movimentações financeiras envolvendo empresas do setor de apostas.

O senador nega a prática de irregularidades.

A ordem para entrega dos passaportes foi expedida por Alexandre de Moraes após a derrota eleitoral, em um contexto de investigações e preocupações relacionadas à possibilidade de saída do país.

Flávio havia declarado publicamente que cumpriria a determinação judicial e que não pretendia deixar o Brasil. A viagem ocorreu no dia seguinte ao vencimento do prazo estabelecido para a entrega dos documentos.

A Polícia Federal passou a examinar as circunstâncias do descumprimento da decisão. O órgão também esclareceu que a restrição de passaportes não significa automaticamente que o parlamentar tenha sido formalmente declarado foragido.

A crise diplomática agora envolve duas questões distintas: a situação jurídica do senador perante as autoridades brasileiras e a necessidade de esclarecer a eventual participação do governo argentino em sua saída do país.

Até o momento, não foi anunciada uma solução diplomática para o episódio.

A confirmação da viagem e as informações sobre o envolvimento de Santiago Caputo ampliaram o distanciamento entre Lula e Milei, em um momento no qual Brasil e Argentina já enfrentavam dificuldades para manter a interlocução política entre seus governos.