Pastor que batizou Flávio Bolsonaro rejeita contestação eleitoral e diz que não há terceiro turno
Bispo JB Carvalho defende encerramento da disputa presidencial após vitória de Lula. Declaração ocorre em meio à viagem de Flávio aos Estados Unidos e expõe divergências entre lideranças evangélicas.

O bispo JB Carvalho, líder da Comunidade das Nações, igreja de Brasília onde o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi batizado em 2024, manifestou-se contra a continuidade das contestações ao resultado das eleições presidenciais. Em publicação nas redes sociais nesta quarta-feira (28), o religioso afirmou que a disputa eleitoral terminou e pediu que seus seguidores evitem alimentar expectativas de instabilidade política no país.
A declaração foi divulgada três dias depois da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno. O posicionamento contrasta com as manifestações do senador, que questionou a votação, anunciou medidas judiciais contra a chapa vencedora e posteriormente viajou para os Estados Unidos.
Segundo reportagem da jornalista Anna Virginia Balloussier, da Folha de S.Paulo, Carvalho compartilhou no Instagram uma mensagem afirmando que não existe terceiro turno e que a população deve seguir com suas atividades após a conclusão da eleição. Na legenda, também fez um apelo para que as pessoas deixassem de anunciar cenários de caos e instabilidade.
O religioso não mencionou diretamente Flávio Bolsonaro na publicação. Entretanto, sua manifestação ganhou repercussão pela proximidade que mantém com o senador e pelo momento político em que foi divulgada.
JB Carvalho comanda a Comunidade das Nações, uma igreja evangélica sediada na capital federal. Foi nessa instituição que Flávio Bolsonaro participou de uma cerimônia de batismo em 2024, fortalecendo sua aproximação com lideranças religiosas.
A relação entre o parlamentar e integrantes da igreja continuou durante a campanha presidencial. Um dos pastores da comunidade, Pedro Leite, acompanhou Flávio durante a apuração dos votos no domingo (25).
A vitória de Lula, confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), encerrou uma disputa na qual o presidente foi reeleito para seu quarto mandato, após superar o adversário no segundo turno.
Flávio, porém, reagiu ao resultado anunciando que buscaria a anulação da eleição, sob o argumento de que a prorrogação do horário de votação havia comprometido a igualdade de condições entre os eleitores.
A decisão questionada pelo senador foi tomada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a ampliação do horário até as 19h nas seções eleitorais que ainda permaneciam abertas às 17h.
No dia seguinte à votação, Flávio modificou a estratégia anunciada e afirmou que recorreria à Justiça Eleitoral para pedir a cassação da chapa de Lula, alegando abuso de poder político e econômico durante a campanha.
As acusações ainda dependem de análise judicial e não alteram automaticamente a validade do resultado proclamado pelo TSE.
O próprio PL, partido de Flávio, reconheceu oficialmente a vitória presidencial na segunda-feira (26), após substituir uma nota em que evitava mencionar expressamente o resultado das urnas.
A direção nacional da legenda manteve questionamentos sobre a condução da eleição, mas declarou reconhecer a decisão anunciada pela Justiça Eleitoral.
A mensagem de JB Carvalho foi divulgada em meio a esses acontecimentos e representa uma posição distinta daquela adotada por religiosos que continuam defendendo as alegações de perseguição política apresentadas pelo senador.
Na quarta-feira, Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami, nos Estados Unidos, acompanhado da esposa e das duas filhas.
A viagem ocorreu depois que o parlamentar foi intimado a entregar seus passaportes por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, em investigação que tramita na Corte.
Segundo relatos publicados pela imprensa, a saída do país surpreendeu integrantes do próprio grupo político do senador.
Flávio tem afirmado que é alvo de perseguição e questiona as decisões judiciais relacionadas às investigações em que seu nome aparece.
Até o momento, a viagem não representa comprovação de que o parlamentar tenha praticado os crimes investigados, e as suspeitas permanecem sujeitas aos procedimentos legais correspondentes.
Depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio divulgou uma carta em que contestou o resultado da eleição presidencial.
Nas primeiras versões do documento, o senador apresentou-se como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Posteriormente, alterou a redação e passou a utilizar a expressão “líder do Brasil”.
O texto também sofreu modificações na identidade visual. Uma versão inicial utilizava um brasão com a grafia histórica “Brazil”, posteriormente substituído por outro com a inscrição “República Federativa do Brasil”.
A sequência de publicações provocou reações entre aliados e lideranças religiosas próximas ao bolsonarismo.
Entre os que se manifestaram está o pastor Silas Malafaia, que apoiou publicamente a decisão de Flávio de deixar o país.
Malafaia afirmou considerar correta a viagem diante do que classifica como perseguição política contra o senador. O religioso também criticou decisões judiciais tomadas após o segundo turno.
Nos bastidores, entretanto, o pastor teria demonstrado insatisfação com a condução política da família Bolsonaro.
Segundo mensagens de WhatsApp divulgadas pelo jornal O Globo, Malafaia fez críticas contundentes aos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), questionando a estratégia de comunicação e as sucessivas alterações da carta divulgada por Flávio.
Procurado pela Folha de S.Paulo, Malafaia não comentou o conteúdo das mensagens atribuídas a ele.
Outro religioso que se manifestou foi Robson Rodovalho, fundador da igreja Sara Nossa Terra. O bispo também apresentou argumentos de perseguição política ao comentar a situação do senador.
Já o pastor Cláudio Duarte adotou posição diferente, defendendo que o resultado eleitoral fosse reconhecido e que a disputa entre os candidatos fosse encerrada.
As declarações mostram que a reação à derrota de Flávio Bolsonaro não foi uniforme entre lideranças evangélicas que estiveram próximas de sua candidatura.
Antes da publicação em que afirmou não haver terceiro turno, JB Carvalho já havia compartilhado uma mensagem religiosa sobre o futuro do Brasil.
Na ocasião, divulgou uma imagem do mapa do país apoiado sobre uma mão que representava a proteção divina. O religioso afirmou que a nação continuava sob os cuidados de Deus, independentemente do resultado político.
A nova manifestação, publicada na quarta-feira, reforçou sua defesa do encerramento da disputa eleitoral e da continuidade da vida nacional após a votação.
O posicionamento não representa um rompimento formal com Flávio Bolsonaro nem uma declaração de apoio político a Lula. Trata-se de uma manifestação pública do bispo sobre a necessidade de reconhecer o fim do processo eleitoral.
Com o resultado presidencial confirmado e a contestação ainda sem decisão favorável na Justiça, o episódio revela diferentes posições entre lideranças religiosas que apoiaram o senador.
Enquanto alguns pastores defendem suas alegações de perseguição, outros passaram a pedir o reconhecimento do resultado e o encerramento dos conflitos relacionados à eleição.
A manifestação de JB Carvalho acrescenta uma voz a esse segundo grupo, justamente por partir do líder da igreja na qual Flávio Bolsonaro foi batizado e com a qual manteve vínculos durante sua trajetória política.