Kassab centraliza negociações do PSD e marca posição diante do novo governo Lula
Presidente do PSD orienta aliados a não negociar cargos antes de reunião com Lula. Partido admite participar do governo, mas defende independência nas votações do Congresso.

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab (PSD), determinou que integrantes do partido não iniciem negociações individuais por cargos no governo federal antes de uma conversa direta com o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A orientação foi transmitida aos dirigentes da legenda em meio às articulações para a formação da equipe ministerial que assumirá em janeiro de 2027.
A decisão ocorre após interlocutores do Palácio do Planalto procurarem Kassab para manifestar o interesse de Lula em discutir a participação do PSD no quarto mandato presidencial. Segundo informações publicadas nesta quinta-feira (29) pela jornalista Bela Megale, em O Globo, o encontro entre os dois deverá ocorrer na próxima semana.
A movimentação faz parte da aproximação do governo com partidos de centro, considerados importantes para a construção de maiorias no Congresso Nacional após as eleições de outubro.
Entre os integrantes do governo que procuraram Kassab está o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), filiado à legenda e integrante da atual administração federal.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) também participou das conversas com o dirigente partidário. Já o senador Camilo Santana (PT), que ganhou destaque na coordenação da campanha presidencial durante o segundo turno, estabeleceu contatos com parlamentares do PSD.
As iniciativas ocorreram depois que Lula orientou aliados a intensificar o diálogo com dirigentes de partidos que não participaram integralmente de sua campanha de reeleição.
De acordo com o Metrópoles, a determinação foi apresentada durante uma reunião realizada na terça-feira (27), em Brasília, com ministros e integrantes da equipe política que participaram da campanha presidencial.
Na ocasião, o presidente solicitou que seus interlocutores procurassem lideranças partidárias para abrir conversas sobre a composição do novo governo. Kassab esteve entre os primeiros dirigentes procurados.
A aproximação ocorre em circunstâncias particulares para o PSD.
O partido lançou o então governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), como candidato à Presidência da República no primeiro turno. Após sua eliminação, Caiado declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL), mas a direção nacional decidiu não apoiar oficialmente nenhum dos dois candidatos na etapa decisiva.
A neutralidade permitiu que dirigentes estaduais e parlamentares adotassem posições diferentes durante a disputa entre Lula e Flávio.
A decisão também preservou canais de diálogo com a campanha petista, em contraste com outras legendas de centro que formalizaram apoio ao candidato do PL.
Durante o segundo turno, Kassab manteve conversas com representantes do PT e autorizou a interlocução com lideranças regionais do PSD, sem estabelecer um compromisso nacional de apoio eleitoral.
Após a vitória de Lula, o dirigente passou a defender publicamente a colaboração institucional com o governo, mas sem vincular a atuação de seus parlamentares à ocupação de cargos na administração federal.
Na terça-feira (27), durante um evento em Brasília, Kassab afirmou que o PSD pretende apoiar medidas governamentais consideradas positivas para o país e divergir das propostas com as quais não concordar.
O dirigente também declarou que a escolha dos ministros é uma atribuição do presidente da República e que a presença de filiados da legenda no Executivo não deve determinar automaticamente o comportamento de sua bancada no Legislativo.
A manifestação ocorreu em meio às primeiras conversas sobre a reorganização da Esplanada dos Ministérios.
Embora tenha afastado publicamente a negociação de cargos em troca de apoio parlamentar, Kassab não descartou a participação de integrantes do PSD no próximo governo. A legenda já ocupa espaços na administração federal e mantém interlocução com diferentes setores do Palácio do Planalto.
O partido atualmente comanda três ministérios, incluindo o de Minas e Energia, ocupado por Alexandre Silveira.
A continuidade desses espaços e a eventual participação de outros filiados dependerão das definições que serão tomadas por Lula durante a reorganização ministerial.
A orientação de Kassab estabelece que qualquer conversa sobre a distribuição de responsabilidades no Executivo deverá passar inicialmente pelo comando nacional da legenda.
Até o momento, não há anúncio de novas indicações ministeriais do PSD nem confirmação de que o partido assumirá outras pastas em 2027.
A expectativa é que o encontro previsto para a próxima semana permita aos dois dirigentes discutir a relação entre o futuro governo e a bancada partidária.
As articulações ocorrem em um momento de mudanças no cenário político nacional.
A reeleição de Lula foi acompanhada pelo fortalecimento da direita nas eleições legislativas. O PL conquistou a maior bancada da Câmara dos Deputados e ampliou sua representação no Senado, enquanto partidos de centro preservaram posições relevantes nas duas Casas.
A nova composição exigirá negociações para a aprovação de projetos e medidas que dependem de maioria parlamentar.
Entre os temas que deverão mobilizar o Congresso estão o Orçamento de 2027, as propostas de ampliação de programas sociais, a política fiscal e as mudanças administrativas anunciadas durante a campanha.
O governo também precisará definir a distribuição de ministérios entre integrantes do PT, aliados históricos e partidos que poderão participar de uma nova base parlamentar.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, dirigentes de legendas de centro já discutem a possibilidade de ampliar sua participação no Executivo, embora parte dessas siglas tenha apoiado Flávio Bolsonaro no segundo turno.
No caso do PSD, a interlocução também envolve a definição de uma posição política para o novo mandato.
Kassab tem defendido que a legenda preserve sua capacidade de apoiar ou rejeitar propostas de acordo com seu programa partidário, independentemente da participação de filiados na administração federal.
Essa orientação permite que o partido mantenha diálogo com o governo sem assumir, necessariamente, compromisso de acompanhar todas as decisões do Executivo nas votações legislativas.
Do lado do Palácio do Planalto, a aproximação com dirigentes de centro integra a preparação para um mandato que começará em janeiro de 2027, em um Congresso com composição diferente daquela observada durante os quatro anos anteriores.
Além do PSD, o governo deverá manter conversas com representantes do MDB, União Brasil, PP e outras legendas com participação relevante no Legislativo.
A reunião entre Lula e Kassab ainda não tem resultado definido. A expectativa é que o encontro avance nas discussões sobre a relação institucional entre o governo e o PSD, sem que isso represente, por enquanto, a confirmação de novas nomeações.
Com a determinação de concentrar as conversas na direção nacional, Kassab estabelece o procedimento pelo qual o partido pretende participar das negociações políticas para o próximo mandato presidencial.