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Opinião

Adriana Vasconcelos: “120 mulheres, uma missão: transformar presença em poder”

Bancadas femininas crescem após as eleições de 2026, mas violência política, ameaças e resistência à participação das mulheres ainda marcam o ambiente parlamentar.

Por Adriana Vasconcelos Publicado em 30 de outubro de 2026 às 14:40 3 min de leitura
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Adriana Vasconcelos: “120 mulheres, uma missão: transformar presença em poder”

A despeito da queda no número de candidatas na eleição deste ano, as bancadas femininas do Congresso Nacional seguiram seu crescimento paulatino. Na Câmara dos Deputados, o número de parlamentares saltou de 90 para 108. O Senado, por sua vez, terá a maior bancada de mulheres desde a redemocratização brasileira, com as 12 eleitas entre as 54 vagas em disputa. O próximo desafio dessas 120 mulheres recém-eleitas será garantir que suas vozes ecoem em um ambiente ainda dominado por homens — até hoje, nenhuma mulher presidiu qualquer uma das duas Casas.

Algumas das eleitas já começaram a sentir na pele as batalhas que terão de enfrentar. É o caso da deputada federal Ana Elisa Santos Silva (PT), que, aos 21 anos, tornou-se uma das 15 mulheres negras eleitas para a Câmara neste ano e a segunda mais votada de Minas Gerais, com mais de meio milhão de votos — atrás apenas do recordista Nikolas Ferreira (PL). Vitória tão expressiva que lhe rendeu a aproximação imediata do presidente Lula, a quem convenceu a gravar vídeos em formato selfie para suas redes sociais.

Na última sexta-feira (9/10), o Ministério da Justiça teve de pedir à Polícia Federal que investigasse a série de ameaças de morte e estupro direcionadas à parlamentar mineira recém-eleita — um volume que a levou a desativar o perfil no X, onde chegou a registrar um ataque a cada dois minutos. A onda foi desencadeada após seu principal adversário em Minas Gerais, o deputado Nikolas, passar a explorar declarações polêmicas publicadas nas redes quando ela tinha 17 anos, em que admitiu “odiar branco”. Embora alegue que a frase foi tirada de contexto, Ana Elisa pediu desculpas “a quem se sentiu ofendido”. Nada, porém, que justifique as ameaças recebidas pela nova deputada federal.

Elas são o destino quase certo de qualquer mulher que alcança protagonismo na cena política brasileira, independentemente da ideologia. Ainda que algumas novatas neguem a existência da violência de gênero, como a deputada estadual Eduarda Campopiano, de 23 anos, eleita com quase dois milhões de votos em São Paulo, e para quem “o feminicídio não existe”. A ex-deputada federal Joyce Hasselmann que o diga: depois de despontar como estrela da direita, com votação recorde em 2018, também virou alvo de xingamentos e ameaças quando ousou discordar de antigos aliados.

O roteiro é conhecido, e a violência de gênero segue sendo um dos principais fatores que levam as mulheres a desistirem da vida pública. O caminho para sobreviver — e ainda assegurar a inclusão da pauta feminina entre as prioridades do Legislativo — é a articulação conjunta. Algumas resistem a essa estratégia no início de cada legislatura, mas a maioria acaba se rendendo à negociação de pautas consensuais, focando no que une e não no que divide.

O resultado desse novo jeito de fazer política, lapidado pelas bancadas femininas, já garantiu às brasileiras uma série de conquistas. Vão da Lei Maria da Penha, marco no combate à violência doméstica, ao projeto ainda em tramitação na Câmara que criminaliza a misoginia, equiparando a pregação de ódio e violência contra mulheres ao racismo e à homofobia.

A urna fez a sua parte. Cabe agora ao Congresso — e a todos nós — fazer a nossa. Porque uma democracia que deixa suas mulheres em silêncio é uma democracia pela metade. E pela metade, o Brasil não anda.