Rodrigo Zani:”Depois de Lula: quem conduzirá o futuro da esquerda brasileira?”

Rodrigo Zani:”Depois de Lula: quem conduzirá o futuro da esquerda brasileira?”

Pensar o futuro da esquerda brasileira exige revisitar, antes de tudo, a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva um percurso que se confunde com a própria história recente do país. Lula emergiu como liderança nacional ainda nos anos 1970, quando, como sindicalista, comandou greves históricas em pleno regime militar. Ali despontava uma figura carismática que falava a língua do povo e enfrentava a ditadura com coragem inédita para o período.

Da efervescência das greves nasceu parte da energia que levaria à fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, um partido que rompia com o modelo tradicional ao se afirmar como organização de massa, enraizada na classe trabalhadora e voltada à participação popular. O PT surgia como alternativa política e ideológica num cenário marcado pela transição lenta e pactuada do regime militar.

Em 1986, Lula foi eleito deputado constituinte. Ao lado da bancada petista, protagonizou embates que moldaram a Constituição de 1988. Embora o partido não tenha assinado a Carta Magna, a presença e a atuação do PT foram decisivas para a formação da chamada “Constituição Cidadã”, sobretudo em temas sociais e trabalhistas.

A projeção nacional de Lula, porém, alcançaria outro patamar em 1989, quando disputou pela primeira vez a Presidência da República. Naquele momento, superou lideranças tradicionais da esquerda, como Leonel Brizola, assumindo de forma definitiva a hegemonia do campo progressista. A partir dali, Lula seria, por décadas, o principal articulador político da esquerda brasileira.

Mesmo derrotado por Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, Lula já exercia um protagonismo inquestionável — e o PT se consolidava como o polo central da esquerda. Mas foi em 2002 que Lula, redesenhando sua estratégia, ampliou alianças e apresentou ao país uma face mais pragmática. A escolha do empresário José Alencar, do PL, como vice, simbolizou a aproximação com setores do mercado e segmentos conservadores. A fórmula deu certo: Lula venceu, governou por dois mandatos e encerrou sua gestão com índices recordes de aprovação.
Fez sua sucessora, Dilma Rousseff, e consolidou, de forma definitiva, seu nome entre as grandes lideranças políticas globais.

O segundo mandato de Dilma, porém, inaugurou um ciclo turbulento. A crise política e econômica abriu espaço para a Operação Lava Jato, cujos desdobramentos alteraram profundamente o ambiente institucional. Dilma sofreu impeachment em 2016 e Lula, em 2018, foi preso. Enquanto isso, uma “nova política” ganhava força e alimentava a ascensão da extrema direita, culminando na eleição de Jair Bolsonaro.

Mas Lula enfrentou cada etapa de seus processos e, posteriormente, viu o Judiciário reconhecer a parcialidade da Lava Jato e anular todas as condenações. Recuperou seus direitos políticos, deixou a prisão e retornou à arena eleitoral. Em 2022, reuniu o campo democrático e derrotou a extrema direita, subindo novamente a rampa do Planalto — um gesto simbólico de retorno, dignidade e resiliência.

Os governos Lula foram socialmente inclusivos, com marcante redução da pobreza e da desigualdade, ampliação das políticas públicas e projeção internacional do Brasil. Como personagem político, Lula soube combinar idealismo progressista e pragmatismo econômico — e isso moldou a esquerda brasileira por mais de quatro décadas.

Mas isso nos leva ao ponto central: o que acontecerá com a esquerda no pós-Lula?

Lula é uma figura histórica, uma liderança que dificilmente terá substituto equivalente. Sua trajetória é singular. No entanto, nenhum campo político pode depender indefinidamente de uma só pessoa. Lula deve ser candidato novamente com chances reais de vitória, mas o debate sobre o futuro não pode ser adiado: quem assumirá a liderança depois dele? Quem terá a capacidade de dialogar com o povo, articular alianças amplas, enfrentar adversários conservadores e, ao mesmo tempo, manter coerência ideológica?

A esquerda brasileira precisa enfrentar essa discussão — e rápido. Não se trata apenas de buscar um nome, mas de criar condições para o surgimento de novas lideranças. É nas universidades, nos movimentos sociais, nos sindicatos e nas bases partidárias que se deve investir na formação política de uma nova geração.

Lula construiu um legado gigantesco. Mas legado é algo que se transmite — não algo que se substitui de imediato. A pergunta que fica, portanto, não é apenas quem será o próximo Lula, mas quem será capaz de liderar o futuro da esquerda brasileira diante dos desafios sociais, econômicos e democráticos do século XXI.
Afinal, Lula já fez história. O que falta saber é: quem escreverá os próximos capítulos?