
A performance de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de opinião, depois de ungido candidato oficial do bolsonarismo, surpreendeu e consolidou a saída de Tarcísio de Freitas da disputa presidencial. O governador de São Paulo é o preferido do establishment empresarial, na medida em que sua candidatura ainda parecia ser a única capaz de unificar o campo oposicionista já no primeiro turno. Com a presença certa de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial para puxar o bonde do 22 nas campanhas para deputado e senador Brasil afora, será inevitável a construção de um outro projeto eleitoral para a oposição.
Não será uma obra simples. O favoritismo de Lula e a estreiteza do bolsonarismo empurrarão as forças políticas do centro e da direita democrática para essa tarefa. Não é a primeira vez que isso acontece. Candidaturas vitoriosas de outsiders, como Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello e Jair Bolsonaro, bem como as tentativas de Silvio Santos e Luciano Huck, foram fruto de articulações em circunstâncias muito semelhantes. A grande diferença é o cardápio de lideranças emergentes existente hoje na vida política brasileira, a rejeição dos dois líderes dos polos populistas e a ação de caciques partidários experientes e habilidosos, como Gilberto Kassab. Não vejo muito espaço para outsiders, mas essa opção sempre existe.
O estado de espírito do ambiente especulativo é de pessimismo, com reflexos no mercado financeiro. Os exercícios de cenários de segundo turno, dando como certas as presenças de Lula e Flávio, afastam do debate o tema mais importante: o terceiro candidato. Seja Ratinho Junior, Eduardo Leite ou um novo nome, o ponto central segue sendo a busca de convergência de líderes e partidos políticos na construção de um projeto de oposição ao Lula 4, longe do bolsonarismo.
As primeiras declarações de Flávio Bolsonaro procuram desenhar um personagem moderado, próximo do centro e distante da pauta antissistema da extrema direita que marcou seu pai. Do lado do PT, o movimento é duplo e propositalmente ambíguo. De um lado, reforça o protagonismo da esquerda raiz, com Gleisi Hoffmann, Guilherme Boulos e Lindbergh Farias; de outro, busca papéis importantes para Geraldo Alckmin, Simone Tebet e Fernando Haddad, fiadores do posicionamento de frente ampla vitorioso em 2022 e abandonado no governo. Os dois lados procuram atrair o centro, e o espaço da rejeição a ambos os populismos segue desocupado.
Os palanques regionais vinham sendo montados até aqui relativamente desvinculados da disputa presidencial. A liderança e o favoritismo do Lula 4, depois do tarifaço e da ação aloprada do bolsonarismo junto a Trump, encorajaram a formação de projetos eleitorais próprios do PT em estados onde essa opção não era considerada, como no Espírito Santo. Aqui, esse fenômeno pode se repetir, estimulado pela candidatura de Flávio Bolsonaro, que pode ancorar projetos majoritários próprios do PL 22 no estado ou forçar uma presença maior no projeto do prefeito Lorenzo Pazolini, do Republicanos.
A velocidade de circulação da informação, factual ou especulativa, multiplicada milhões de vezes pela tecnologia e pela imaginação fantasiosa dos seres humanos, molda a guerra de narrativas e versões que fazem a luta pelo poder. A formação da opinião pública e a força eleitoral dos diferentes projetos e líderes estão em disputa permanente no ambiente digital, e o resultado futuro é trazido a valor presente a cada instante, formando a expectativa dominante. No mercado futuro do poder, só não há acordo possível entre comprados e vendidos. O centro democrático terá um projeto eleitoral para presidente da República nas eleições de 2026, formado pelas forças moderadas representadas apenas marginalmente no Lula 4 e em Flávio Bolsonaro.
No Espírito Santo, três palanques já estão de pé: os incumbentes Ricardo Ferraço, governador, e Casagrande, senador; Lorenzo Pazolini, governador e principal desafiante; Helder Salomão, governador, e Fabiano Contarato, senador, pelo PT com o Lula 4; Arnaldinho Borgo, governador, e Luiz Paulo Vellozo Lucas, senador, no PSDB sob nova direção. A posição do PL 22, de Magno Malta, fortalecida pela candidatura de Flávio Bolsonaro, ainda não se definiu.
A eleição para deputado federal, a começar pela formação das chapas, é a competição mais acirrada. Mudanças de partido são esperadas na janela que se abre em 5 de janeiro, e a cotação dos principais candidatos sobe também. Os mais bem posicionados têm a primazia de escolher o partido político. Nem todas as legendas conseguirão montar chapas com expectativa de vitória.
A eleição é o momento mágico da democracia. Tudo pode mudar.
Luiz Paulo Vellozo Lucas é engenheiro de produção e professor universitário. Mestrado em desenvolvimento sustentável. Foi prefeito de Vitória-ES e deputado federal pelo PSDB-ES. Membro da ABQ Academia Brasileira da Qualidade.