
Dois estudos exigem detida análise para se decifrar o que vem a ser o Brasil dos anos 20 do nosso século: o levantamento sobre valores e crenças dos brasileiros, publicado sob o título Brasil no Espelho (Globo Livros), de Felipe Nunes e O Brasil dos Invisíveis, de Pablo Ortellado e Stephen Hawking, pesquisa da More in Common, com nova perspectiva sobre os segmentos políticos.
Não se trata de espelho a refletir apenas a imagem externa, mas de verdadeira tomografia da alma brasileira. Se por uma ideia se morre, mas por uma crença se vive, conforme Ortega y Gasset, é importante decifrar, com perguntas reveladoras das escolhas valorativas, no que crê a nossa gente.
E assim o faz Felipe Nunes, a desvendar os valores fundantes do brasileiro, por diversos vieses: geracional, religioso, cor, sexo, escolaridade, região, posição política, perscrutando ambições, medos e expectativas em face do poder público. E chega a precisas conclusões: o brasileiro é individualista, desconfiado e conservador, pois, religioso, acredita num Deus cristão, regente da existência, levando ao vertiginoso crescimento dos protestantes de diversas denominações.
A frequência ao culto é forma de socialidade para pessoas desconfiadas como o brasileiro, infenso a trabalhos comunitários, a esforços coletivos, para quem os outros, especialmente os servidores públicos, são inconfiáveis.
A família constitui “âncora afetiva e moral”, de alta centralidade amorosa, diversa da antiga estrutura patriarcal hierarquizada, sendo uma constância o almoço de domingo. Acima da família só Deus.
A segurança pública é questão central já há tempos assinalada, sendo o brasileiro, por medo, punitivista, mas aderente a práticas realistas. Reconhece a necessidade de inteligência na investigação, presença territorial, mas opõe-se ao armamentismo.
No plano das escolhas políticas, afirma-se a presença de um “centro expandido”, prevalecendo o conservadorismo moral e a cobrança de atuação estatal nos campos da saúde e da educação. Mas pensa que benefícios sociais devem ser concedidos “a quem merece”, para “não fomentar o ócio”. Parcela de 37% se diz de centro, avaliando o governo por aquilo que fez, sem posições preconcebidas.
O conservadorismo se expressa na aprovação da pena de morte, na condenação à prisão da mulher que faz aborto, no sucesso em todo o País da música gospel, no entendimento de ser injustificável a homossexualidade.
Já em O Brasil dos Invisíveis o diagnóstico é acrescido pela busca de caminhos para a reconstrução da coesão democrática, sendo preciso reorientar o debate público para a maioria não polarizada: os invisíveis. Conclui-se que existem seis categorias de pessoas: progressistas militantes; esquerda tradicional; desengajados; cautelosos, conservadores tradicionais e patriotas indignados. Os das duas pontas são os mais presentes nas redes onde muito tonitruam. Relevantes são os grupos intermediários, que formam, juntos, a “maioria silenciosa que compartilha a desconfiança com o sistema político, interessada em temas concretos”.
Os “desengajados” são indivíduos para os quais o que importa é “o que funciona”, clamando pela volta à “normalidade” social e política. Os “cautelosos” são indivíduos que expressam desconfiança generalizada em relação à política, à mídia, aos partidos e às instituições – e consideram “o povo decente e as elites corruptas”.
Esses grupos reúnem uma maioria de pessoas negras, com renda familiar abaixo de R$ 5 mil e sem ensino superior e compõem pouco mais da metade (54%) da população do País. São pragmáticos e preocupados com temas concretos como trabalho, serviços públicos e segurança.
A pesquisa revela um sentimento difuso de fadiga com o conflito político. Percebem-se mais semelhanças do que diferenças entre os partidos e deseja-se que trabalhem juntos na solução de problemas.
Assim, em vista de conflitos sem resultados, perpassa todos os grupos a percepção de que “políticos buscam apenas os seus próprios interesses e não os do povo”, havendo um “forte consenso (82% da população) de que os interesses dos ricos são contrários aos do povo”.
Na mesma linha do estudo Brasil no Espelho, a pesquisa de Ortellado indica dois vieses valorativos presentes em todos os segmentos: religiosidade e punitivismo. A maioria da população avalia a religião como pilar moral essencial, devendo até mesmo inspirar a elaboração das leis. A outra tendência, o punitivismo, defende, por exemplo, a prisão de menores de idade, com certo tempero por se entender ser a violência questão social a se enfrentar não apenas com repressão.
Conjugadas, a tomografia da alma brasileira viabilizada por Brasil no Espelho e a pesquisa O Brasil dos Invisíveis, apresenta diretrizes para plano de voo de uma candidatura distante dos polos antagônicos, buscando dialogar a partir de detalhado projeto de administração, fixando prioridades e os meios para realizar o plano de ação.
Se não for por este caminho, será mais do mesmo em 2026, mas, com o dobro do descontentamento manifestado nas ruas em 2013.