Fabiano Lana: “Por quanto tempo Flávio Bolsonaro ficará sem dizer a que veio?”

Líder nas pesquisas, senador do PL evita expor propostas enquanto adversários buscam o ponto fraco da candidatura

Fabiano Lana: “Por quanto tempo Flávio Bolsonaro ficará sem dizer a que veio?”

“Quem tem a oportunidade de liquidar a campanha no 1º turno é Flávio Bolsonaro”, diz Jorge Perez

Para estrategista de Ratinho Jr., Lula perdeu a eleição no carnaval, quando a Acadêmicos de Niterói citou ‘família em conserva’ em desfile. Crédito: Estadão

Certos traços populistas da sociedade brasileira são um entrave a uma discussão séria sobre o nosso futuro. Uma consequência é que, nos períodos eleitorais, raramente (ou nunca) prevalece um debate aprofundado sobre medidas que os candidatos de fato pretendem tomar caso cheguem ou se mantenham no poder. Ações como necessidade de ajustes em contas públicas se tornam, para o oponente, crueldade contra os mais pobres. Reformas modernizantes para a máquina governamental sobreviver em novas circunstâncias viram uma espécie de crime de lesa-pátria e o debate fica interditado.

Foi também dessa maneira, inclusive, tornando o ambiente eleitoral bastante histérico, que o Partido dos Trabalhadores venceu uma série de eleições contra o PSDB, que, após Fernando Henrique Cardoso, nunca soube como se defender de maneira eficiente das razias.

Daí que hoje chegamos a uma situação paradoxal. Praticamente não conhecemos as ideias do candidato numericamente à frente das pesquisas de intenção de votos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Está na liderança apenas por conta do sobrenome e pela rejeição ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ao petismo. De resto, fala pouco sobre o que interessa e sua trajetória tem sido marcada mais por suas dancinhas desajeitadas em palanques pelo País afora do que por alguma ideia.

Flávio Bolsonaro tem articulado bastante para dentro, em acordos políticos. Mas evita falar para fora. Foto: Pedro Kirilos
Os estrategistas do PT ainda discutem como ferir Flávio. Há vários flancos. Rachadinhas que teriam se transformado em enriquecimento ilícito, supostas ligações com milicianos, DNA golpista diretamente herdado do pai, Jair Bolsonaro, subserviência ao presidente norte-americano Donald Trump (como se o PT não tivesse as suas tradicionais relações de afeto com ditaduras de esquerda). Não sabemos se o plano petista irá funcionar ou se, no máximo, transferiria a intenção de voto para outros candidatos de direita, como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) ou Renan Santos (Missão).

Na esteira do escândalo do Banco Master, da crise no Supremo Tribunal Federal, do endividamento das famílias e outras questões que ferem o Palácio do Planalto, Flávio ganha tempo. Tem articulado bastante para dentro, em acordos políticos. Mas evita falar para fora. É uma diretriz consciente de que, no Brasil, planos e propostas servem mais para alimentar contra-ataques eleitoreiros do que seguir de base para qualquer discussão. A outra hipótese é que seja um candidato vazio de perspectivas.

O historiador marxista Eric Hobsbawn tinha um ponto contra a democracia. Em seu livro, A era dos extremos, lamentava que as ideias, na democracia, para prosperarem ou serem derrubadas, precisavam vir acompanhadas de muita exaltação, de cargas pesadas de emoção em contraponto à racionalidade (como se nas ditaduras comunistas as ideias não se impusessem pela força, de cima para baixo). E a maioria democrática, para ele, se obtinha pelo grito. Talvez, com receio da gritaria do PT, Flávio tenha optado pelo silêncio. A questão é saber por quanto tempo resistirá.