
Alfredo Bertini faleceu durante uma cirurgia, no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, idealizado por ele próprio. Se este fosse o roteiro de um filme, o diretor seria apontado por falsificar a realidade; a crítica diria que a vida do personagem – economista, cinéfilo, escritor, filósofo, agregador de amigos – seria suficiente para dispensar o recurso teatral. Este ano, o público do Cine/PE sentiu a emoção de viver a realidade mais surpreendente que a ficção da tela. Nesta edição, Bertini foi mais que organizador, foi o personagem principal.
Sua vida, desde a infância na Praia do Pina, em Recife, até a formação profissional, participação na criação do Porto de Suape, seus artigos, seu pioneirismo na economia do audiovisual, pode ser captada por um bom diretor, mas dificilmente se reproduzirá em tela a emoção coletiva vivida no centenário Teatro Cinema do Parque, nas noites da 30ª edição.
Presença
Nos primeiros dias, sentíamos a presença de Alfredo e esperávamos sua recuperação. Mas ele faleceu quando começava a exibição de um dos longas do festival. A morte só foi anunciada depois que a sessão terminou e as luzes se acenderam. E veio a dor de quem se sentia em dívida com o amigo que nos reuniu no momento de sua partida.
Durante meses na lista para transplante, Bertini aguardou por um fígado compatível. Nesse período, conversou com amigos sobre a espera por um órgão. Falou sobre a realidade de nosso tempo, em que a ciência criou corredores para a vida sem abolir os corredores para a morte, seja pela guerra, pela penalidade jurídica, pela violência nas ruas ou pela pobreza. Manifestou com tristeza que o número de órgãos disponíveis aumentou com o crescimento da morte de jovens em acidentes de trânsito. Compartilhou a ambiguidade existencial de sua sobrevivência depender da morte de alguém.
Importância
Quem participa do mundo cinematográfico conhece a importância e a dificuldade para realizar um festival, ainda mais mantê-lo por 30 edições consecutivas. A escolha de filmes, agenda de atores, diretores e críticos, toda a produção e engenharia financeira são tarefas que parecem insuperáveis.
Devemos a Bertini o lançamento de dezenas de filmes brasileiros, sobretudo obras pernambucanas, que hoje orgulham o Brasil.
Apesar da dor, não houve a sensação de morte: ele continuava sendo a parte mais importante do festival e continuará presente nas futuras edições.
Alfredo agora se torna o vento que conduzirá as novas edições do Cine/PE, rebatizado como Festival Bertini do Cinema Brasileiro. Estará sempre presente porque virou ele próprio um filme, sobretudo se o cinema que abrigou o festival receber o nome de Cinema do Teatro do Parque Alfredo Bertini.