A 4 meses da eleição, governo Lula gasta R$ 80 milhões em publicidade para divulgar fim da escala 6×1

O governo Lula destinou R$ 80 milhões para divulgar a proposta que acaba com a escala 6x1. A campanha foi lançada pela Secom em maio, com o mote “tempo com a família”, e supera os gastos com publicidade sobre a isenção do Imposto de Renda e o Desenrola Brasil.

A 4 meses da eleição, governo Lula gasta R$ 80 milhões em publicidade para divulgar fim da escala 6×1

A quatro meses da eleição, o governo Lula destinou R$ 80 milhões para uma campanha publicitária sobre o fim da escala de trabalho 6×1, uma das principais bandeiras políticas do Palácio do Planalto em 2026. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados em 27 de maio e ainda precisa passar pelo Senado antes de virar regra definitiva.

Lula (PT) tem tratado a redução da jornada como uma pauta de forte apelo popular, especialmente entre trabalhadores submetidos ao modelo de seis dias de trabalho por um dia de descanso. A campanha do governo foi lançada no início de maio pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, com o mote “tempo com a família”, e passou a circular em diferentes meios de comunicação.

Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo e repercutido por outros veículos, os R$ 80 milhões foram aplicados pela Secom na produção e veiculação de peças publicitárias. O valor coloca a campanha entre as mais caras da atual gestão e evidencia a prioridade dada pelo governo à tentativa de associar a medida à imagem do presidente em pleno ano eleitoral.

O montante supera os gastos de outras campanhas recentes do governo federal. A publicidade sobre o fim da escala 6×1 custou o dobro do valor destinado à divulgação da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Também ficou acima dos R$ 45 milhões reservados para promover a nova etapa do programa Desenrola Brasil.

A comparação chama atenção porque a ampliação da isenção do Imposto de Renda também era uma vitrine econômica importante para o governo. Mesmo assim, recebeu menos recursos de divulgação do que a campanha sobre a jornada de trabalho, o que reforça a leitura de que o Planalto aposta no fim da escala 6×1 como uma das principais peças de comunicação para tentar reconectar Lula ao eleitorado de baixa e média renda.

A Secom afirmou que não há previsão de ampliar os recursos destinados às campanhas do fim da escala 6×1 e do Desenrola Brasil. A secretaria também disse que as ações publicitárias serão veiculadas em múltiplos meios, além da TV e da internet, e que a distribuição das verbas segue critérios técnicos, como audiência, perfil do público-alvo, cobertura geográfica e diversificação dos canais de comunicação.

O modelo de execução das campanhas prevê que a Secom defina os temas e repasse os recursos para agências contratadas. Uma parte menor do orçamento costuma ser usada na produção de vídeos, banners, peças gráficas e materiais digitais. A maior fatia é direcionada à compra de espaços em veículos de comunicação, plataformas digitais, redes sociais e outros meios de divulgação.

A campanha ocorre em um contexto de aumento do peso da publicidade digital nos gastos federais. Nos últimos anos, a internet passou a representar parcela crescente das ações de comunicação institucional, com mais recursos destinados a plataformas como Google e Meta. Em algumas frentes, os valores aplicados no ambiente digital já superaram investimentos em anúncios pagos em redes tradicionais de televisão.

Além do fim da escala 6×1, o governo federal também tem utilizado publicidade para promover outras marcas e programas, como “Brasil Soberano”, Gás do Povo, Agora Tem Especialistas, Desenrola Brasil e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. O conjunto de campanhas mostra uma estratégia de comunicação voltada a transformar medidas de governo em ativos políticos de alto alcance.

Os gastos federais com publicidade atingiram recentemente o maior volume empenhado desde 2017. Ao todo, cerca de R$ 1,5 bilhão foram reservados para ações de comunicação institucional, com R$ 924 milhões administrados diretamente pela Secom. O restante ficou concentrado principalmente em outras áreas do governo, como o Ministério da Saúde.

A discussão sobre a escala 6×1 tem forte apelo social, mas também envolve dúvidas sobre impacto econômico, adaptação de pequenas empresas, custos trabalhistas e efeitos sobre setores que dependem de funcionamento contínuo. A proposta aprovada na Câmara ainda será analisada pelo Senado, onde o debate deve envolver ajustes, resistências e pressões de diferentes setores da economia.

O gasto de R$ 80 milhões em publicidade reforça uma crítica recorrente ao governo Lula: em vez de priorizar sobriedade fiscal e entrega efetiva de políticas públicas, o Planalto aposta em campanhas caras para vender suas principais bandeiras. Em um país que convive com contas públicas pressionadas, serviços deficientes e carga tributária elevada, a comunicação governamental se transforma em mais um ponto de desgaste.

Para o eleitor, a questão não é apenas o mérito da redução da jornada, mas o uso da máquina pública para promover uma pauta de interesse direto da estratégia eleitoral do presidente. A quatro meses da votação, a campanha levanta dúvidas sobre o limite entre publicidade institucional, prestação de contas e propaganda política disfarçada de comunicação pública.

A PEC ainda depende do Senado para concluir sua tramitação. Até lá, o governo deve seguir tentando transformar o fim da escala 6×1 em símbolo de sua agenda trabalhista, enquanto a oposição e setores do centro cobram responsabilidade fiscal, transparência nos gastos e avaliação concreta dos impactos da mudança sobre emprego, renda e produtividade.