Alberto Lage: “Fumo, mas não trago. Gasto, mas não arrecado”

Artigo expõe contradições da pré-campanha no Brasil, onde candidatos podem gastar livremente antes da eleição, mas seguem impedidos de arrecadar com transparência.

Alberto Lage: “Fumo, mas não trago. Gasto, mas não arrecado”

A fase de pré-campanha no Brasil voltou ao centro do debate jurídico e político após críticas ao modelo atual, que permite despesas eleitorais antes do período oficial, mas restringe mecanismos formais de arrecadação. Em artigo publicado nesta semana, Alberto Lage classificou o sistema como um paradoxo institucional que favorece candidatos com patrimônio próprio e amplia desigualdades na disputa eleitoral.

Segundo o autor, a legislação brasileira criou uma situação curiosa: o pré-candidato pode viajar, contratar equipe, impulsionar conteúdos digitais, produzir material de divulgação e se posicionar politicamente, desde que não peça voto de forma explícita. Ao mesmo tempo, não há um modelo claro e seguro para financiar essas ações com transparência desde o início da corrida.

Na prática, o sistema acaba beneficiando quem já dispõe de recursos pessoais ou acesso privilegiado às estruturas partidárias. Nomes novos, lideranças comunitárias e quadros técnicos sem máquina política enfrentam barreiras muito maiores para competir em igualdade de condições.

O debate ganhou força após mudanças recentes da Justiça Eleitoral sobre impulsionamento de conteúdo nas redes sociais durante a pré-campanha. As regras ampliaram exigências formais, mas mantiveram zonas cinzentas sobre origem e prestação de contas dos gastos realizados antes da campanha oficial.

Especialistas em direito eleitoral vêm alertando que a ausência de regras objetivas cria insegurança jurídica e amplia decisões casuísticas. Casos recentes envolvendo candidaturas nacionais mostraram interpretações distintas sobre o que seria excesso de gastos ou vantagem indevida.

A crítica também recai sobre o Congresso Nacional, que até hoje não consolidou um modelo moderno para a fase pré-eleitoral. Em democracias consolidadas, etapas preliminares costumam contar com mecanismos transparentes de arrecadação, limites claros e prestação de contas desde o primeiro movimento político.

No Brasil, entretanto, permanece um sistema que combina permissividade parcial com falta de clareza. O resultado é uma disputa menos aberta ao mérito e mais dependente de estrutura financeira, padrinhos partidários ou exposição prévia.

Em um momento em que a sociedade cobra renovação política, eficiência institucional e igualdade de oportunidades, cresce a pressão por reformas que deem mais racionalidade ao processo eleitoral. Sem isso, a pré-campanha continuará sendo território vantajoso para poucos e desafiador para quem tenta entrar pela porta da frente.