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Economia

Bolsa chega a despencar 17% após vitória de Lula, e dólar dispara a R$ 5,60

B3 interrompe negociações pela primeira vez desde 2020, juros futuros disparam e Tesouro Nacional atua no mercado de títulos públicos após forte reação à reeleição presidencial.

Por Brasil no Centro Publicado em 26 de outubro de 2026 às 14:55 8 min de leitura
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Bolsa chega a despencar 17% após vitória de Lula, e dólar dispara a R$ 5,60

O mercado financeiro brasileiro enfrentou uma das sessões de maior turbulência dos últimos anos nesta segunda-feira (26), primeiro dia de negociações após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores, chegou a registrar queda de 17,34%, enquanto o dólar atingiu R$ 5,60 e os juros futuros dispararam diante das preocupações dos investidores com a política econômica do próximo mandato.

A intensidade das perdas levou a B3 a acionar o mecanismo de emergência conhecido como circuit breaker, interrompendo temporariamente as negociações pela primeira vez desde março de 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou uma crise nos mercados internacionais.

A paralisação ocorreu depois que o Ibovespa atingiu o limite inicial de queda de 10% em relação ao fechamento de sexta-feira (23). As operações ficaram suspensas por 30 minutos e foram retomadas com perdas ainda mais acentuadas.

Na mínima da manhã, o índice chegou a 169.516 pontos, recuo de 17,34%. Por volta das 14h30, apresentava alguma recuperação, mas continuava em forte baixa, com desvalorização de 14,10%, aos 176.173 pontos, segundo dados divulgados pelo g1. Os números correspondiam ao andamento do pregão e ainda não representavam o fechamento da sessão.

A queda ocorreu depois que Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25).

O presidente conquistou seu quarto mandato com aproximadamente 51,8% dos votos válidos, encerrando uma disputa na qual Flávio havia liderado o primeiro turno e chegado à votação decisiva com vantagem em parte das pesquisas eleitorais.

O resultado contrariou as expectativas de uma parcela dos investidores, que havia ampliado suas posições em ativos brasileiros apostando na vitória do candidato do PL.

Durante a campanha, Flávio apresentou propostas de contenção das despesas públicas e mudanças na política econômica. Já a continuidade do governo Lula passou a ser associada, por participantes do mercado, à possibilidade de manutenção de gastos elevados e maiores dificuldades para estabilizar a dívida pública.

Com a confirmação da reeleição, investidores passaram a revisar suas expectativas para ações, câmbio e juros.

O movimento representou uma mudança significativa em relação ao pregão posterior ao primeiro turno, quando o Ibovespa registrou alta de 7,70% diante do desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Desta vez, a reação foi na direção oposta, provocando uma desvalorização generalizada das ações brasileiras.

A interrupção das negociações foi anunciada oficialmente pela B3 ainda pela manhã.

O circuit breaker é um mecanismo utilizado para reduzir os efeitos de movimentos extremos de venda. Quando o Ibovespa cai 10% em relação ao encerramento do pregão anterior, as operações abrangidas pela regra são suspensas por meia hora.

Em condições normais, uma segunda paralisação ocorre quando a desvalorização atinge 15%, desta vez por uma hora. Se a queda alcançar 20%, a Bolsa poderá determinar uma interrupção adicional, com duração definida conforme as condições do mercado.

Nesta segunda-feira, diante da situação excepcional, a B3 ajustou os parâmetros operacionais e estabeleceu o patamar de 20% para uma nova interrupção, evitando que a retomada das negociações fosse seguida imediatamente por outra suspensão.

A Bolsa também ampliou os limites de oscilação para contratos futuros do Ibovespa, que chegaram a registrar perdas próximas de 20%.

O episódio marcou o retorno de um instrumento que não era utilizado desde março de 2020, quando o mercado brasileiro enfrentou sucessivas interrupções provocadas pela incerteza econômica no início da pandemia.

A turbulência também atingiu o mercado de câmbio.

O dólar comercial chegou a ser negociado próximo de R$ 5,60, depois de registrar valorização superior a 12% em determinados momentos da sessão.

A alta da moeda norte-americana refletiu a busca por proteção diante da volatilidade dos ativos brasileiros e das dúvidas sobre a condução da economia no novo mandato presidencial.

O movimento também ampliou a atenção sobre os possíveis efeitos da desvalorização do real nos preços de produtos importados, combustíveis, insumos industriais e demais itens influenciados pela cotação internacional.

Embora a oscilação de um único pregão não determine automaticamente aumentos de preços, uma valorização persistente do dólar pode exercer pressão sobre a inflação.

Os contratos de juros futuros acompanharam a deterioração dos mercados.

Na manhã desta segunda-feira, a taxa projetada para janeiro de 2027 passou de 13,475% para 13,898% ao ano. Para janeiro de 2029, avançou de 12,595% para 15,03%, enquanto o vencimento de 2035 atingiu 15,375%, ante 12,68% na sessão anterior.

As taxas refletem as condições negociadas por investidores para diferentes vencimentos e não representam uma alteração imediata da Selic, definida pelo Banco Central.

Se permanecerem elevadas, entretanto, poderão influenciar o custo de financiamento de empresas, consumidores e do próprio governo.

A disparada dos juros também provocou uma intervenção do Tesouro Nacional no mercado de títulos públicos.

O órgão realizou uma operação de recompra de aproximadamente R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados, envolvendo cerca de 8,4 milhões de papéis.

A medida buscou oferecer liquidez e reduzir as distorções provocadas pela queda dos preços desses títulos.

Quando os preços dos papéis públicos recuam, suas taxas de rendimento tendem a subir. Por isso, a recompra pode ajudar a amenizar oscilações excessivas e melhorar as condições de negociação.

O Tesouro também adotou ajustes em sua programação de leilões de títulos, diante das condições de mercado registradas nesta segunda-feira.

A instabilidade brasileira teve reflexos em outros países da região.

Na Argentina, principal parceiro comercial do Brasil no Mercosul, o índice Merval registrava queda próxima de 4,5% durante a sessão, acompanhando o aumento da cautela dos investidores com os ativos sul-americanos.

O desempenho dos mercados argentinos ocorreu em um contexto no qual o país também enfrenta desafios próprios de política econômica e financiamento, não sendo possível atribuir toda a oscilação exclusivamente à eleição brasileira.

No cenário internacional, os investidores também acompanhavam os preços do petróleo e as expectativas para decisões de política monetária dos principais bancos centrais.

A cotação do Brent permanecia próxima de US$ 117 por barril, em meio às preocupações com o fornecimento internacional da commodity e as tensões envolvendo Estados Unidos e Irã.

Esses fatores externos também influenciam as decisões de investimento, embora a eleição brasileira tenha concentrado a atenção do mercado doméstico nesta segunda-feira.

Entre as principais preocupações dos analistas estão as perspectivas para o controle das despesas federais e a necessidade de preservar a sustentabilidade das contas públicas.

Durante a reta final da campanha, Lula anunciou medidas como o reajuste do Bolsa Família, a ampliação do programa Pé-de-Meia, novos benefícios para microempreendedores individuais e iniciativas de renegociação de dívidas.

O Ministério do Planejamento já informou que deverá remanejar aproximadamente R$ 20 bilhões no Orçamento de 2027 para acomodar parte dos compromissos assumidos.

A equipe econômica sustenta que as alterações poderão ser realizadas dentro das regras fiscais, mas o governo ainda precisará apresentar ao Congresso Nacional os ajustes previstos e as fontes de financiamento.

Em entrevista ao g1, o analista Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, destacou que a trajetória da dívida pública e o controle das despesas estarão entre os principais elementos acompanhados pelos investidores no início do novo mandato.

O economista Jason Vieira, da Lev DTVM, mencionou a possibilidade de o governo apresentar medidas de revisão de gastos obrigatórios para reforçar o compromisso com a meta fiscal.

As decisões efetivamente adotadas pela equipe econômica serão determinantes para a evolução das expectativas nos próximos meses.

Além das questões fiscais, o mercado acompanha os possíveis desdobramentos judiciais da eleição presidencial.

Após a derrota, Flávio Bolsonaro anunciou a intenção de contestar o resultado, questionando a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que prorrogou o horário de votação em determinadas seções eleitorais no domingo.

Embora a Justiça Eleitoral tenha confirmado a vitória de Lula, integrantes do mercado consideram que uma disputa judicial prolongada poderá acrescentar incerteza ao ambiente político.

Até esta segunda-feira, entretanto, não havia decisão que tivesse anulado a eleição, e a contestação anunciada pelo senador não alterava a validade do resultado proclamado.

O quarto mandato de Lula começará oficialmente em janeiro de 2027, mas a reação dos investidores já colocou a condução da economia entre os principais assuntos do período pós-eleitoral.

A forte queda do Ibovespa, a disparada do dólar e a elevação dos juros futuros refletem a revisão das expectativas do mercado sobre a continuidade do governo petista.

Com o pregão ainda em andamento, a atenção dos investidores permanece concentrada nas possíveis manifestações da equipe econômica e nas primeiras indicações sobre como o presidente reeleito pretende conciliar os novos compromissos de campanha com a necessidade de equilíbrio das contas públicas.