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Com aval de Lula, Edinho Silva ameaça expulsar ala do PT e amplia crise interna no partido

Presidente do PT defende afastamento de dirigentes acusados de omissão na campanha eleitoral e enfrenta reação de Washington Quaquá, principal alvo da disputa.

Por Brasil no Centro Publicado em 3 de novembro de 2026 às 14:53 9 min de leitura
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Com aval de Lula, Edinho Silva ameaça expulsar ala do PT e amplia crise interna no partido

O presidente nacional do PT, Edinho Silva (PT), iniciou uma ofensiva contra dirigentes da própria legenda que considera responsáveis por falhas de mobilização durante a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com o aval atribuído ao presidente da República, a movimentação poderá resultar na abertura de processos de expulsão contra integrantes de uma ala internamente conhecida como “centrão petista”, ampliando as divergências que marcaram o partido durante as eleições de 2026.

Segundo reportagem da jornalista Catia Seabra, publicada pela Folha de S.Paulo nesta terça-feira (3), Edinho defende o afastamento de correligionários considerados desalinhados com a proposta de renovação partidária. A iniciativa ganhou força após uma reunião da Executiva Nacional do PT, realizada na quinta-feira (29), quando o dirigente cobrou explicações sobre a atuação de integrantes do partido no segundo turno presidencial.

Durante o encontro, Edinho questionou o comportamento de dirigentes que, segundo relatos apresentados à direção nacional, teriam se afastado das atividades eleitorais em um momento decisivo da disputa contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). Entre as críticas estavam acusações de ausência na campanha e até de viagens de férias enquanto o partido buscava ampliar a mobilização para garantir a reeleição de Lula.

O presidente petista defendeu que integrantes insatisfeitos com os rumos da legenda considerem deixar voluntariamente a sigla. Também mencionou a possibilidade de uma separação litigiosa, expressão interpretada pelos participantes como uma referência à abertura de procedimentos disciplinares que poderiam resultar em expulsões.

Ao encerrar a reunião, Edinho afirmou ter conversado com Lula sobre o futuro do partido. Relatou que havia se encontrado com o presidente naquela manhã e discutido, também no dia anterior, a necessidade de reorganizar a estrutura partidária.

Segundo dirigentes presentes, Edinho reproduziu uma avaliação atribuída a Lula de que o PT deve funcionar como um projeto político coletivo, e não como instrumento de promoção individual ou obtenção de vantagens pessoais.

O discurso foi interpretado por parte dos participantes como uma sinalização de que o presidente da República apoia mudanças na composição da direção partidária e o afastamento de integrantes considerados resistentes à reorganização proposta.

Entre os principais nomes envolvidos na disputa está o prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), que também ocupa a vice-presidência nacional da legenda. O dirigente mantém divergências públicas com Edinho e é apontado por integrantes do partido como um dos primeiros possíveis alvos da ofensiva.

Quaquá não participou da reunião da Executiva Nacional. Antes do encontro, havia questionado sua realização e defendido que a avaliação da campanha presidencial fosse conduzida em uma instância partidária mais ampla.

A ausência foi interpretada por adversários internos como parte da resistência à atual direção. O prefeito, entretanto, afirma que suas divergências são políticas e que não pretende abandonar o PT.

Procurado pela Folha, Quaquá reagiu às declarações de Edinho com críticas à sua condução partidária. O prefeito acusou o presidente da legenda de divulgar informações falsas sobre sua participação na campanha e contestou a possibilidade de ser afastado por discordar da direção nacional.

Quaquá afirmou que coordenou esforços eleitorais em favor de Lula no Rio de Janeiro e rejeitou a acusação de omissão. Também esclareceu que seu filho, Diego Zeidan, dirigente estadual do PT, precisou interromper temporariamente suas atividades por orientação médica, após apresentar um problema de pressão arterial.

Segundo o prefeito, o afastamento durou quatro dias e não representou abandono da campanha. Zeidan posteriormente participou de atividades eleitorais na Bahia, em meio às mudanças promovidas na coordenação petista no Rio de Janeiro.

A disputa ocorre depois de Lula ter sido derrotado por Flávio Bolsonaro nos dois turnos da eleição presidencial em Maricá, município administrado por Quaquá. O resultado local passou a integrar os questionamentos sobre o desempenho de diferentes diretórios estaduais e municipais.

O prefeito também reagiu à possibilidade de expulsão afirmando possuir uma trajetória histórica dentro da legenda. Em sua manifestação, declarou que Edinho deveria deixar o PT caso não aceitasse a convivência com correntes internas que defendem posições diferentes.

A divergência entre os dois dirigentes não começou com a eleição presidencial. Quaquá já enfrentava questionamentos na comissão de ética do partido por declarações públicas sobre temas de segurança e episódios de grande repercussão nacional.

Entre as manifestações controversas estão sua defesa de Domingos Brazão, acusado de participar do planejamento do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), e seu apoio a uma operação policial no Rio de Janeiro que deixou mais de uma centena de mortos.

Essas posições provocaram pedidos de expulsão apresentados por integrantes do PT, mas os procedimentos não avançaram até o momento. A possibilidade de novas medidas disciplinares amplia a tensão entre grupos que disputam influência sobre a direção nacional. Folha de S.Paulo

Além das divergências com Quaquá, Lula e Edinho também demonstraram insatisfação com o comportamento de candidatos petistas durante a campanha eleitoral.

Segundo relatos reunidos pela Folha, o presidente mantém registros de materiais de propaganda distribuídos por integrantes do partido que não apresentavam seu nome ou imagem, mesmo durante a disputa pela reeleição.

Em setembro, Edinho já havia cobrado publicamente que candidatos a deputado incluíssem o nome de Lula e dos candidatos majoritários apoiados pela legenda em suas peças eleitorais.

O presidente do PT chegou a advertir que candidatos que descumprissem as orientações poderiam ser obrigados a devolver recursos recebidos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conforme a apuração das responsabilidades e as regras aplicáveis.

A cobrança ocorreu em meio a trocas de acusações de falta de compromisso partidário, depois da circulação de materiais de candidatos que priorizavam suas próprias campanhas e deixavam de mencionar integrantes das chapas majoritárias.

O resultado das eleições aprofundou os questionamentos. Lula conseguiu a reeleição no segundo turno, mas a campanha enfrentou dificuldades de organização e divergências internas durante as primeiras semanas de outubro.

O próprio presidente reconheceu publicamente que a estrutura eleitoral havia funcionado abaixo de suas expectativas, classificando a campanha do primeiro turno como a menos organizada de suas disputas presidenciais desde 1989.

As críticas levaram à reformulação da coordenação do segundo turno, com a ampliação da participação de lideranças como Camilo Santana (PT), Rafael Fonteles (PT) e Rui Costa (PT) em funções estratégicas. A reorganização reduziu parte das atribuições inicialmente concentradas em Edinho Silva, embora ele tenha permanecido na coordenação geral. Folha+1

Após a vitória, a direção petista passou a discutir a necessidade de renovar seus quadros, reorganizar a atuação nos estados e ampliar a participação de jovens na estrutura partidária.

Lula tem defendido que a legenda interprete a mobilização popular registrada durante a campanha e atualize sua capacidade de comunicação com diferentes setores da sociedade.

Segundo relatos de dirigentes, o presidente considera que o PT poderá perder espaço para novas organizações políticas caso não consiga responder às expectativas dos eleitores mais jovens.

Outro ponto de divergência envolve a atuação dos parlamentares petistas no Congresso Nacional. Integrantes próximos a Lula defendem que a bancada esteja mais alinhada às propostas apresentadas durante a campanha, incluindo a revisão do papel das emendas parlamentares na execução do Orçamento federal.

Parte dos deputados e dirigentes, entretanto, passou a atuar segundo práticas de negociação orçamentária semelhantes às de partidos do Centrão. Essa aproximação com a dinâmica tradicional do Congresso levou correligionários a identificar informalmente esse grupo como “centrão petista”.

A expressão não corresponde a uma corrente formal do partido, mas é utilizada por integrantes da legenda para se referir a parlamentares e dirigentes considerados mais próximos das práticas de negociação política e distribuição de recursos orçamentários.

A tentativa de afastar esses integrantes poderá atingir diretamente a Construindo um Novo Brasil (CNB), principal corrente interna do PT e da qual fazem parte tanto Lula e Edinho quanto Washington Quaquá.

O grupo mantém a maior representação na direção nacional e foi responsável por negociações que permitiram a eleição de Edinho para a presidência partidária em 2025.

Na ocasião, Quaquá chegou a disputar o comando da legenda, mas retirou sua candidatura depois de um entendimento político articulado com participação de Lula. O prefeito de Maricá declarou apoio a Edinho, contribuindo para preservar a unidade da corrente majoritária.

A aproximação, entretanto, não eliminou as divergências sobre a condução administrativa e política do partido. Nos últimos meses, dirigentes estaduais e parlamentares questionaram a distribuição de recursos eleitorais, a concentração de decisões na direção nacional e a autonomia das organizações regionais.

Uma reunião do Diretório Nacional está prevista para 13 de novembro e deverá aprofundar a avaliação da campanha presidencial e as discussões sobre a reorganização do partido. O encontro também poderá definir os próximos passos de um congresso partidário voltado à renovação da legenda. Folha de S.Paulo

Enquanto isso, o conflito entre Edinho e Quaquá continua sem uma solução formal. Não há confirmação de que a direção nacional tenha aprovado a expulsão do prefeito ou instaurado um novo procedimento disciplinar relacionado às divergências recentes.

O embate ocorre justamente quando Lula prepara negociações com partidos de centro para ampliar sua base parlamentar no quarto mandato. Edinho Silva foi encarregado de participar das conversas com dirigentes de outras legendas, ao mesmo tempo em que enfrenta questionamentos dentro do próprio PT.

A eventual abertura de processos disciplinares contra integrantes do chamado centrão petista poderá aprofundar a disputa pelo controle da legenda, colocando em lados opostos dirigentes que participaram da mesma corrente política e apoiaram a reeleição de Lula.

Por enquanto, o afastamento dos dissidentes permanece uma possibilidade discutida nos bastidores e defendida por setores da direção partidária, sem decisão definitiva sobre expulsões.