Fabiano Lana: “Eleitores decisivos são incompatíveis com o bolsonarismo e menosprezados por Lula (ou vice-versa)”

Eleitores centristas e independentes se tornam foco estratégico enquanto bolsonarismo e petismo polarizam o debate eleitoral

Fabiano Lana: “Eleitores decisivos são incompatíveis com o bolsonarismo e menosprezados por Lula (ou vice-versa)”

Tanto bolsonaristas como petistas gostam de bater no peito e se dizerem contra o sistema; a verdade é que o sistema político brasileiro é um espectro gelatinoso dominado por ambos os movimentos antípodas

O candidato Flávio Bolsonaro procura se apresentar como um político moderado aos olhos do eleitor. Tentou, inclusive, atravessar incólume, até o dia do pleito, sem abrir a boca para coisas relevantes. Chegou a substituir a apresentação de ideias sobre o Brasil por danças desajeitadas em palanques. Até pelo temperamento relativamente cordial do senador, parecia um conceito eficaz. Mas, além de bolsonarismo ser antônimo de prudência, havia muito de seu passado que poderia vir à tona para soterrar seus planos presidenciais.

A campanha de Lula guardou as armas contra Flávio até inviabilizar, por decurso de prazo, a candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que teria chance de receber o voto dos recalcitrantes tanto contra o petismo quanto contra o bolsonarismo. Daí, com o primogênito dos Bolsonaros consolidado, passariam para o tiro ao “01″. Mirariam nas acusações de “rachadinha”, enriquecimento ilícito, ligações com milicianos e tudo mais que pesa contra o Bolsonaro candidato.

Com a estratégia, o PT não conseguiria o voto da forte base bolsonarista, que transforma qualquer denúncia contra alguém do clã em perseguição política (como os petistas fazem com o Lula, aliás). O propósito era apenas que a minoria de eleitores independentes deixasse de votar em Flávio. Os próprios irmãos, Carlos e Eduardo, fariam o resto do trabalho, de agredir quem é de centro ou de centro-direita, hábito contraprodutivo que não conseguem abandonar.

Lula, entretanto, ganhou alguns presentes nesse meio tempo, a despeito da subida rápida e até surpreendente de Flávio nas pesquisas. O primeiro foram as relações promíscuas do senador do Rio de Janeiro com o banqueiro radioativo Daniel Vorcaro. Áudio pedindo dinheiro, mesmo que, em tese, para financiar filme para o pai, pega muito mal nesse eleitor assustadiço. Flávio caiu pouco nas pesquisas pelo escândalo, o suficiente para perder eleições, conforme levantamento da Genial/Quaest revelado neste Estado de S. Paulo. O segundo presente, a impressão generalizada de que as tarifas impostas pelos EUA e a ameaça ao Pix foram obra dos Bolsonaros.

A má notícia para os comedidos é que, com Flávio na lona, Lula consegue fazer campanha como gosta. Apenas falando para os seus. Pode ser agressivo na linguagem. Abusar na divisão do País entre ricos e pobres, entre empresários e trabalhadores. Pode invocar seu discurso anticapitalista, anti-empreendedor, e anti as ideias que fizeram as nações mais ricas prosperarem no longo prazo. Traz a verdadeira visão do petismo sobre a sociedade e a economia que remonta a ideias anteriores à queda do muro de Berlim, em 1989: um Estado que na prática sufoca investimentos e precisa compensar o fracasso com fortes programas assistenciais.

Aos demais candidatos, o desafio é muito maior. Como puxar para si votos que vão além da minoria independente? Ser mais bolsonarista do que Flávio? Atacar Flávio? Fazer um chamado à razão? Parece ser uma tarefa impossível nos poucos meses até as eleições.

Tanto bolsonaristas como petistas gostam de bater no peito e se dizerem contra o sistema. A verdade é que o sistema político brasileiro é um espectro gelatinoso dominado por ambos os movimentos antípodas. Na órbita estão os integrantes de um Centrão (não centro) a buscar as vantagens possíveis junto a quem nominalmente o comanda.