Fabiano Lana: “Flávio é mais delirante e perigoso do que os críticos imaginavam”
Após a derrota eleitoral, a reação de Flávio Bolsonaro reacende o debate sobre os limites da oposição e os riscos de uma estratégia de confronto permanente com as instituições.

A campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores, como é de praxe, investiu no terrorismo eleitoral para vencer as eleições. Principalmente a partir do segundo turno. Pintou o adversário Flávio Bolsonaro tal qual um Lúcifer, que não só acabaria com os programas sociais, como implantaria o fascismo no Brasil. Parecia delírio de gente que faz tudo pelo poder – e é verdade. Mas eis que, numa carta designada à nação, em que se autodeclara presidente, o candidato derrotado se mostra pior do que seus inimigos o pintavam: um mau perdedor autoritário e, como elemento novo, um desvairado inconsequente. Um risco real ao País.
Dos Estados Unidos, país a que chegou hoje, após fuga típica de filme de gângster, Flávio era como a pior caricatura ruim do bolsonarismo e tenta desestabilizar o País . Ainda não sabemos se serão apenas palavras ao vento, pois só terão algum efeito se tiverem algum apoio do presidente americano Donald Trump e se seus seguidores bolsonaristas daqui atenderem a seu apito. Para quem acredita em mau agouro, a primeira carta divulgada por Flávio continha um brasão em que o Brasil era grafado com z. Estamos chegando a um ponto em que talvez, em comparação ao filho, o pai, Jair, condenado por tentativa de golpe de Estado, seja o ponderado (isso é uma ironia, infelizmente é preciso explicar).
Mas algo se pode concluir por antecipação aos efeitos desconhecidos da missiva: as denúncias concretas que pesavam contra Flávio – rachadinha, enriquecimento ilícito, pedido de dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro etc.
Se o vencedor Lula não falou em conciliação em seu primeiro pronunciamento após a vitória no último domingo, Flávio aposta na destruição. Aproveita-se de mais uma interferência indevida do Judiciário no processo eleitoral — o adiamento da votação determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Cristiano Zanin — para tentar colher uma tempestade. Serve-se também dos abusos cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes, como pedir seus passaportes após o fechamento das urnas — para tentar inverter o jogo.
Os mais pessimistas com relação à democracia atribuem-lhe uma qualidade: permite que o perdedor vá para casa sem derramamento de sangue, sem condições de destruir a nação. A postura de Flávio provou que falta ao bolsonarismo as credenciais democráticas mínimas. Mostra ao país e aos seus participantes que, se o objetivo é vencer o petismo, será preciso livrar-se de vez daquela família nefasta que conquistou o coração de tantos brasileiros de bem (e muitos oportunistas, além dos genuinamente autoritários também).