Fabiano Lana: “Fazer campanha para convertidos não fará de ninguém um vencedor”

Petismo e bolsonarismo ainda não sabem muito bem como agregar novos apoiadores, o que é fundamental para a vitória em outubro
Os escândalos vêm e vão, as gafes se acumulam, e as pesquisas de intenção de voto das eleições presidenciais mostram certa estabilidade, com alguma vantagem ao presidente Lula, mesmo que sua popularidade não esteja lá estas coisas. O principal oponente, Flávio Bolsonaro, apesar dos percalços, segue na sua cola. Em alguns casos, a depender do instituto, há um empate técnico. A sociedade segue em dois grandes blocos políticos quase inquebrantáveis. Se, por um lado, é difícil tirar votos do petismo e do bolsonarismo, por outro lado, essas forças ainda não sabem muito bem como agregar novos apoiadores.
Ainda parece que não acertaram na estratégia de tentar convencer os votos decisivos de quem ainda, em níveis diferentes, rejeita tanto o petismo como o bolsonarismo. Flávio, de vez em quando, lembra que pelo menos se vacinou. Lula manda tirar reestatizações e tarifa zero do programa de governo. Também, por meio de assessores, avisa que, em eventual próximo mandato, irá cuidar melhor da questão fiscal, o que é uma espécie de calcanhar de Aquiles das gestões petistas.
O problema, muitas vezes, são os aliados e parceiros. Os irmãos de Flávio Bolsonaro, por exemplo, parecem se esforçar, todos os dias, para repelir os votos fundamentais para a vitória do clã. Tome-se o caso dessa postagem de Carlos, o filho 02, na semana passada: “Não é difícil entender por que todo o sistema e a ‘direita permitida’ insistem diariamente em matar Bolsonaro”. Um ataque à própria centro-direita que gostam de chamar também de “direita limpinha”, em tese uma aliada de segundo turno. Nunca pensam em seduzir, mas em expelir.
Talvez o problema seja apenas matemático. Não conseguem fazer as contas da quantidade de votos que precisam para vencer. Outro exemplo foi a volta do questionamento das vacinas e do isolamento social, por causa das revelações envolvendo o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, Anthony Fauci.
Um diário apreendido mostrou que Fauci, no íntimo, ao contrário da figura pública, tinha dúvidas com relação às medidas que obrigava os americanos a tomar. Mas, independente de quem tenha razão nesta história, o posicionamento de Jair Bolsonaro durante a Covid, tido como insensível, foi um dos pontos que determinou sua derrota em 2022. Tocar nesse assunto é, matematicamente, prejudicar o bolsonarismo.
No petismo, o afasta-votos do centro parece ser liderado pela primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja. Voltou a flertar com a censura ao pedir o fim do aplicativo Discord no Brasil. É aquela história, pode até ter pertinência em parte do argumento, mas cada vez que alguém da esquerda fala em proibir algum canal de expressão, os votos moderados fogem por causa do autoritarismo envolvido. Vencer as eleições é ter mais votos, não ter razão.
Apostando no freestyle, Renan Santos, do Missão, talvez seja o candidato que no momento tem conseguido falar melhor com esse público indeciso. Além disso, se apresenta como o mais antenado com as novas tecnologias. Por mais que se esforce, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema ainda parece desajeitado no figurino pós-moderno. Ronaldo Caiado segue na aposta de uma cartilha tradicional. Mas o desafio deles é diferente. A questão é que não basta a esses candidatos da “terceira via” falar com quem se considera independente. Precisam buscar votos no coração do bolsonarismo para se tornarem viáveis. O que até agora tem sido uma missão impossível.
Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Brasil acima da lucidez”, em que discute a política, a história, a cultura e a sociedade brasileira.
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