
O Brasil caminha para encerrar o atual mandato presidencial sob um quadro fiscal inédito desde a criação do Plano Real. Análises econômicas indicam que a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve registrar o maior rombo das contas públicas do século, resultado de déficits persistentes, expansão acelerada dos gastos e uma trajetória preocupante da dívida.
O alerta parte do economista Fabio Giambiagi, que utiliza o déficit nominal como principal indicador para medir a gravidade do cenário. Diferentemente do resultado primário, esse conceito incorpora também o custo dos juros da dívida pública, hoje elevados, o que amplia significativamente o desequilíbrio das contas. Pelas projeções, o déficit nominal médio do terceiro mandato de Lula deve se aproximar de 9% do PIB, superando os piores momentos de governos anteriores, inclusive o período da pandemia.
Os números ganham ainda mais peso no contexto internacional. Dados do Instituto de Finanças Internacionais colocam o Brasil como o segundo país emergente mais endividado do mundo, atrás apenas da China. Com uma dívida pública próxima de 88% do PIB, o país passa a figurar à frente de economias como Índia, Rússia e México, o que reforça a percepção de vulnerabilidade externa.
Especialistas apontam que o descontrole fiscal tem efeito direto sobre os juros. A falta de uma agenda clara de revisão de despesas e de ajuste estrutural eleva o risco percebido pelo mercado, pressionando a taxa básica e encarecendo o crédito para famílias e empresas. Na prática, isso reduz investimentos, desacelera o crescimento e compromete a capacidade do Estado de ampliar gastos em áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.
Há divergências sobre as causas. Enquanto Giambiagi atribui o cenário principalmente às escolhas fiscais do atual governo, outros analistas ponderam que medidas herdadas do ciclo eleitoral de 2022 e o ambiente de juros altos também influenciam os resultados. Ainda assim, o consenso é que a trajetória atual impõe limites severos ao próximo governo.
Para tributaristas e economistas, o risco maior está no legado. Com dívida elevada, juros altos e pouca margem fiscal, o país pode chegar a 2027 com restrições severas à adoção de políticas públicas, aumento da pressão por novos tributos e necessidade de ajustes mais duros. O debate fiscal, que já ocupa o centro da agenda econômica, tende a ser um dos temas mais sensíveis do próximo ciclo político.