JK foi assassinado pela ditadura, conclui comissão investigadora

Órgão ligado ao Estado brasileiro aprova relatório que contesta a versão do acidente e reconhece Juscelino Kubitschek como vítima da ditadura militar.

JK foi assassinado pela ditadura, conclui comissão investigadora

Quase cinquenta anos após a morte de Juscelino Kubitschek, uma decisão histórica voltou a colocar no centro do debate nacional um dos episódios mais emblemáticos da política brasileira. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu oficialmente que o ex-presidente foi assassinado por agentes da ditadura militar, contrariando a versão sustentada durante décadas de que JK teria sido vítima de um acidente automobilístico na Via Dutra, em 1976. 

A conclusão foi aprovada por seis votos favoráveis e uma abstenção dentro do colegiado vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos. O parecer, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, reúne uma extensa análise documental baseada em investigações do Ministério Público Federal, laudos periciais e estudos produzidos por diferentes comissões da verdade ao longo dos últimos anos. 

Segundo o relatório, há inconsistências relevantes nas investigações conduzidas na época do regime militar. O documento sustenta que a narrativa segundo a qual o carro de JK teria sido atingido por um ônibus antes da colisão fatal não encontra respaldo suficiente nos elementos analisados mais recentemente. A comissão também aponta falhas em registros oficiais, divergências técnicas e indícios de interferência externa que teriam provocado a perda de controle do veículo. 

Juscelino Kubitschek morreu em 22 de agosto de 1976, quando viajava pela Rodovia Presidente Dutra rumo ao Rio de Janeiro. O veículo era conduzido por seu motorista e amigo, Geraldo Ribeiro, que também morreu no episódio. Durante décadas, a versão oficial sustentou que o automóvel perdeu o controle após uma suposta colisão com um ônibus e acabou atingindo uma carreta na pista contrária. 

A nova conclusão reforça uma linha de investigação que já vinha sendo defendida por comissões estaduais e municipais da verdade, especialmente em Minas Gerais e São Paulo. Essas apurações questionavam a dinâmica do acidente e apontavam a existência de elementos compatíveis com uma ação política planejada contra o ex-presidente. 

O relatório aprovado possui mais de cinco mil páginas e deverá produzir efeitos formais. Entre as medidas previstas está a retificação da certidão de óbito de JK para adequá-la à nova conclusão oficial reconhecida pelo Estado brasileiro. A decisão também inclui o reconhecimento do ex-presidente como vítima da perseguição política ocorrida durante o período autoritário. 

A reviravolta acontece em um momento simbólico, às vésperas dos cinquenta anos da morte de Juscelino. Considerado um dos principais líderes políticos da história republicana, JK ficou marcado pelo projeto desenvolvimentista que impulsionou a industrialização do país e pela construção de Brasília, além de manter forte influência política mesmo após o golpe militar de 1964. 

A decisão reacende discussões sobre os crimes cometidos durante o regime militar e amplia a pressão por esclarecimentos definitivos sobre episódios que permanecem cercados de controvérsias históricas. Para setores da política e da sociedade civil, o reconhecimento oficial representa um novo capítulo na busca por respostas sobre um dos acontecimentos mais debatidos da história contemporânea brasileira.